Encruzilhada

Encruzilhada

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 29/12 - O movimento

29/12

O movimento

Estamos em movimento
de salto em salto
ato em ato
contra o vento
contra o tempo;
rugindo e chorando
sofrendo e lutando, lutando
parados sem direção
tudo é rápido demais
correndo no sentimento
pra sempre não é o bastante;
tentando, tentando, tentando
passo a passo, momento a momento
chegando, mais perto, chegando
de lugar nenhum, em movimento.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 28/12 - A luta

28/12

A luta

Onde deveríamos estar?
Marcados de sangue
Cobertos de sangue
Manchados, dominados
De olhos abertos
ou apagados
Amados ou condenados da multidão
O chamado é um clarão:
A solidez de um lugar de pé é só
qual solidão de um lugar no chão.

Um poema por dia - 27/12 - O salto

27/12

O salto

Lance-me às alturas
Pronto para morrer
Pela ânsia de viver mais
A liberdade dos sinais
Vitais para experimentar
O senso de cair no ar
Desmoronar no vão
Entre o ser e o embrião
de um novo ser
Dotado do poder
da escolha, da ciência,
da memória da experiência.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 26/12 - Mudo em silêncio

26/12

Mudo em silêncio

Sonho secreto
Com beijos perversos
Em lábios discretos
Diversos;
Noite quente
Alçada a mente à queda
No precipício do suplício
E a principiar
A mudança do olhar
Tudo ao mesmo tempo em silêncio.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 25/12 - O poeta é um canalha

25/12

O poeta é um canalha

Exausto das palavras
Ausente de sentidos
O poeta falha
Preso na batalha
de significar;
É, pois, um canalha
Vivendo de enganar
Sugado num buraco do vazio
Esperando
O sol se abrir no seio do fastio
Um novo mundo
Um novo tempo
Um novo homem.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 24/12 - Noite não

24/12

Noite não

Esta noite chega sem espera
Pudera
Estamos longe;

Esta noite não existe neste ano
Escrevo de uma outra dimensão
Não há fala, não há plano
Não há casa;
Hora passa, noite vaga, noite não
Não. Este ano esse é o refrão.
Não.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 23/12 - Viagem na beira da asa

23/12

Viagem na beira da asa

Asa.
Avoa, asa.
Rasante e rasa.
Brilhante, brava
Passa e me leva contigo, asa
Queimando em brasa
Asa de fogo, avoa e vai-te embora
Avoa e some
Do reino do homem
Avoa pra longe, asa
Avoa de volta pra casa.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 22/12 - Sobrevoo

22/12

Sobrevoo

Esta noite se atravessa
O deserto escuro do proibido
E nós, como peixes
No fundo do mar
Feixes de possibilidades
Correntes para fugir
Seguindo as aparentes,
Cordas estendidas
Até que esgotadas
Rompidas
Decididas e escolhidas
Por ninguém
Sobras, migalhas
Restos do além.

Um poema por dia - 21/12 - Quero não

21/12

Quero não

ê, moleira!
quer sair, quer fazer?
quero não
ô, leseira,
vem pra cá, vai pra lá?
vou não
ah, bobeira,
sai daí, vamo daqui!
saio não, vamo não
eita, preguiceira
nem fala, nem faz
nem menos, nem mais
não, nem
quero não, bem.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 20/12 - As consequências

20/12

As consequências

Hoje me deixo perder
Pender
Pro lado que me levar
À vontade do dia querer;

O verbo infinitivo
Indefine o escolhido
Encoraja o desolado
Faz vago o expressivo
E geral o destemido;

Mas que outro calor

No sabor da explosão?
A visão do horror,
O vigor da paixão?
A ilusão do amor
É amar a ilusão.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 19/12 - Seguir

19/12

Seguir

Sigo sol
Contigo, sigo rei
Rendido
Ao tempo que fora da lei
Ruindo por entre pedras de sal
Tão frágil que nem sei
Pra onde vou;

Sigo farol
Comigo e contigo
Bem-vindo no beijo o refrão
Unido e bandido da fé
Sentido e deitado no chão
Meu amor,
Quanta dor, quanta cor, que visão.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 18/12 - Canto da beira da estrada

18/12

Canto da beira da estrada

Gatos roubados
Na beira da estrada numerada
Pés cansados;

De cima da calçada
Vê-se o mundo
Passar
Derreter diante do olhar
Com velhas cicatrizes
Queimando
Lembrando outro lugar
Sangrando o velho sonhar;

A ponta da sola do pé em frangalhos
Caminhar, caminhar, caminhar

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 17/12 - Canto do amigo adormecido

17/12

Canto do amigo adormecido

Um salve pela amizade que não morre
Esta que desperta de longo adormecer
Não por ocasião, por opção
Escolha atrasada de dizer
Que me reconheço em você;

Brindo à retomada desses laços
À companhia desses passos
E quanto a todos os abraços
Perdidos no passado não vivido
Já os sinto, todos, tantos cá comigo;

Seremos de novo, caro amigo
A amizade acordada aqui descrita
Retomada já está e jaz bonita.

Um poema por dia - 16/12 - Eu não senso

16/12

Eu não senso

Chove branco no banco
E não para de cair
Um sorriso no chão
Uma lágrima no céu
Felicidade de papel
Com chama feita de açúcar;
Enrolado na coberta
A casa é sua,
Salão iluminado de saudade
Vontade que não cabe no corpo
Transborda pelos dedos
Medos numa alegoria
A alegria deste dia
Lida por uma alma vazia.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 15/12 - O caminhante da triste figura

15/12

O caminhante da triste figura

O caminhante desta noite delira
Desfaz-se em fantasia
Embriagado de calor
Oh, triste figura
Se move na escura presença do furor
Fulgura a promessa de amor
Engano.
Teu plano derrete
Empoça em volta de ti e reflete
A maquete de um pequeno projeto de vida
E a noite, caminhante
Te envolve densa, alucinante
E chama o fim de sempre, a solidão
Conforto do vazio pleno, escuridão.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 14/12 - O monolito

14/12

O monolito

Há um conflito.
Agudo é o grito
do corte aflito;
A morte é mito
rico em sorte,
o maldito abandonado
e ainda forte;
Encanto perpétuo não dito
repito:
pra sempre o rito,
a dança em barco de granito,
o fardo no espaço infinito.

Um poema por dia - 13/12 - A beleza

13/12

A beleza

O que faz a beleza?
A harmonia de traços da natureza?
O momento em que os passos do tempo
Alcançam no enfim
Um retrato imitado
Busca incansável;
A etérea cor do espírito,
Indecifrável é o amor
Pelas formas de um rosto
E as fórmulas do corpo
Normas para o gosto da alma
Na calma, escolher:
O que faz a beleza?
Poderá um só responder?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Azul é a cor mais quente


E lá se vai Adèle…
Quebrada de amor
Cabelo indomado
Esfomeada em mar de lágrimas;
Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma jovem de quinze anos. Nascida numa família de classe média (baixa) de Lille, na França, ela corre atrás do ônibus da escola, não usa maquiagem, devora spaguetti, tem cabelo bagunçado, adora literatura, deseja ser professora e, à beira da idade adulta, procura uma identidade que a defina, algo (ou alguém) que a complete.
‘Azul é a cor mais quente’ (La vie d’Adèle: Chapiters 1 & 2, no francês original) é a história do seu despertar.
Um despertar emocional, sensorial, intelectual e sexual. Envolvida em todas as etapas desse processo está Emma (Léa Seydoux), a jovem artista de cabelo pintado de azul por quem Adèle se apaixona e que se torna a musa inspiradora de seus trabalhos.
O relacionamento entre as duas personagens levou o filme a ser rotulado como uma história de amor homossexual, uma lamentável redução para uma obra sobre um tema muito maior. Obviamente ‘Azul…’ traz muito de seu tempo ao retratar a relação de um casal de lésbicas antes mesmo da França ter legalizado o casamento gay – o que hoje já é uma realidade no país.
Mas trata-se de um filme sobre a paixão, sobre o amor visto pela ótica de uma jovem mulher em formação. E no fim das contas, seu grande diferencial não é o tema, mas a abordagem próxima, íntima e sincera que o diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche propõe, colocando o espectador como uma testemunha não só da história de Adèle, mas de sua vida como um todo.
Basicamente sem trilha sonora, o filme cobre aparentemente cerca de doze anos da vida da protagonista, se estende por três horas e não é raro ouvir de espectadores ou críticos que gostariam de assistir muito mais – reza a lenda que, ao fim de cinco meses e meio, o diretor tinha 800 horas de filmagem na mão.
E a narrativa se desdobra com uma naturalidade espantosa, fluente e fascinante em sua cinematografia cheia de closes e luminosidade. Enquanto Adèle inicia suas descobertas, procura seu caminho e vaga pela estrada de prazeres e sofrimentos da paixão e do início da vida adulta, nós, do lado de cá da tela, vivemos uma experiência de imersão raramente vista no cinema.
De fato sequer parece cinema. Parece vida.
‘Azul…’ venceu a Palma de Ouro, o prêmio principal do Festival de Cannes deste ano. Numa decisão inédita, o presidente do júri, Steven Spielberg, entregou a láurea ao diretor e às atrizes, reconhecendo que o resultado final seria tão fruto do trabalho de Abdellatif Kechiche como de Adèle e Léa.
Uma decisão justa, tal a entrega das duas e a potência de suas atuações na tela. Muito do filme foi de fato improvisado por Adèle e Léa, num processo de trabalho com o diretor que, segundo as próprias atrizes, beira o insano.
Pois sim, chegamos à controvérsia. Não bastasse todas as qualidades, ‘Azul…’ faz muito barulho por onde passa por uma série de polêmicas. A mais popular delas, a presença de três intensas e explícitas sequências de sexo entre as duas protagonistas. Por conta delas, o filme foi banido de Idaho, nos Estados Unidos e gerou críticas ao cinema IFC, em Nova Iorque, por permitir a entrada de adolescentes menores de 17 anos desacompanhados – o IFC inclusive oferece gratuidade aos cidadãos de Idaho que viajarem os 3300 km até NY para ver o filme.

Trata-se de uma polêmica complexa, com diversas variantes. As cenas em questão são longas – a maior delas dura quase 10 minutos – e as próprias atrizes consideraram que o diretor talvez tenha se estendido um pouco demais. Por outro lado, elas se adequam ao ritmo e à proposta geral do filme, de acompanhar a vida de Adèle de forma íntima, afinal o sexo (e a descoberta sexual em especial) talvez seja a experiência mais definidora da personalidade de um ser humano.
Mas há de se admitir que, em certos momentos, o filme esbarra na autoindulgência; e o fato de um homem heterossexual dirigir duas (belas) atrizes heterossexuais em longas sequências de sexo lésbico está no limite entre o necessário/aceitável para a narrativa e a fantasia masculina. O que aconteceria, por exemplo, se em vez de duas belas mulheres a história retratasse a relação de dois homens? Haveria longas cenas de sexo explícito?
Julie Maroh, autora do romance gráfico no qual o filme se baseia – “Azul…’ é também leve e livremente inspirado em ‘La vie de Marienne’, romance inacabado de Pierre de Marivaux – declarou em seu blog que faltaram lésbicas no set para mostrar como é o sexo homossexual. E disse ainda que, do jeito como estão no filme, as sequências beiram o conceito pornográfico do imaginário masculino sobre o que é o sexo entre duas mulheres.
A defesa do diretor Abdellatif Kechiche, de certa forma, pode ser vista no próprio filme quando um dos personagens, numa festa na casa de Emma e Adèle, fala sobre a busca dos artistas masculinos por retratar o prazer feminino em suas obras.
Outro ponto de muita polêmica é o processo de trabalho do diretor.
‘Ele é um gênio, mas um gênio torturado’, declarou Adèle Exarchopoulos ao jornalista Marlow Stern, do The Daily Beast, numa polêmica entrevista ao lado de Léa.
Segundo as duas, a mais longa das sequências de sexo (onde elas tiveram que usar próteses vaginais para simulações de sexo oral) demorou dez dias para ser filmada.
“Que bom que ganhamos a Palma de Ouro, porque foi um período terrível”, disse Léa.
Na mesma conversa as atrizes ainda revelaram que não trabalhariam com o diretor novamente e que, na cena em que as personagens brigam, Abdellatif filmou com três câmeras uma única tomada contínua de uma hora e as proibiu de simularem golpes, forçando Léa a realmente bater em Adèle.
“Você pode ver no filme que estamos sofrendo de verdade”, ela diz, enquanto Léa complementa: “Eu tinha que empurrar ela pra fora de uma porta de vidro; a Adèle se cortou, estava sangrando, chorando, o nariz escorrendo e ele disse ‘Não terminamos, vamos fazer de novo’”.
Obviamente, a entrevista chegou aos ouvidos do diretor, que chamou Léa Seydoux de arrogante e mimada e prometeu processar a atriz. Abdellatif, sinceramente ou pondo mais lenha na fogueira, chegou até mesmo a sugerir cancelar o lançamento do filme achando que a experiência do público seria influenciada por toda a polêmica.
Mas o fato é que toda a controvérsia só levantou mais interesse pelo filme. ‘Azul é a cor mais quente’ já está em cartaz no Brasil e foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, mas não poderá concorrer ao Oscar na mesma categoria. O filme não cumpriu a regra da Academia americana que obriga o pretenso candidato a entrar em cartaz em seu país natal até o fim de setembro (na França, o filme estreou em 5 de outubro).
Não custou muito (4 milhões de euros), não vai render uma fortuna (até aqui arrecadou 7 milhões de dólares no mundo), e é uma história sobre gente de verdade. Uma obra singular capaz de fascinar e suscitar debates sobre seu conteúdo e sua forma.
Meu filme do ano.
E lá se vai Adèle
Levando agora e sempre
O vazio ao seu lado
Vestindo azul enamorado.

Um poema por dia - 12/12 - vida viaja

12/12

vida viaja

uma viagem de vida
ou uma vida viagem;
retrato da eterna despedida
canto de uma sempre paisagem

viver em passagem
nesta história concebida;
à beira, beirando a margem
a viagem de uma vida
numa vida que é viagem.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 10 poemas favoritos - Julho, agosto e setembro

02/07

dançando no escuro

despiu-se.
às escuras, olhar em sombra
dançou nu
na áfrica;
foi rei
no breu
livre
plebeu 
do sempre
quente
ao canto da tribo
egresso de eras
no transe cego
sábio
ébrio
guerreiro selvagem
bailante
primitivo
instintivo
levado por sentidos
os mais polidos
tolhidos
podados
renunciados
no ritmo da terra
do som
em ebulição
o sangue por uma canção
que expulse demônios
exorcizando, expurgando
no corpo se encontra a proposta
não a resposta
escrita a mão
na escuridão
por intuição
inspiração.

11/07

Antes do fim

Tic tac
Toc toc
Bate à porta a finitude
Traz um canto de aviso:
Quem ainda não morreu
Estará morto;

Se faz de pé, se faz lembrar:
O que não acabou
Um dia vai acabar;

Fim,
A mão pesada que esmaga o sonho
A sombra que se volta sobre o medo

Sim,
Também a luz que ilumina o próprio tempo
Faz poesia da passagem, do momento

Tudo chega ao fim
Tudo chega a um fim
As coisas lindas ficarão
Porém são findas
Todas as coisas, mais lindas
Lindas que mais, partirão;

Eis o tamanho da escuridão
Que nos deixa com a luz
Da vida de nós
Do agora, hoje, do amanhã
Do depois, do sempre

Quanto seja antes, assim,
Todo o sempre, antes do fim.

14/07

Canto do que será

Será à toa?
A rima da criança
Com esperança
E a presença da lembrança
Nessa dança?

O muro, duro
A rima do futuro
Futuro do presente
Pressente

De braços erguidos no ar
Haverá
Chegará
Virá
Será

Será?
O passado
Amado
Como se diz?
Feliz
De quem passou
Quem viveu
Morreu
Quem viu?
Cem mil.

Será? À toa, será?
À toa
Doa, doa a quem doer
Por quem quiser sofrer
Por quem sofrer quiser
Por homem ou por mulher
Esteja onde estiver
Esteja
Será?
Se for, que assim seja.

O mistério é etéreo
Ou não seria misterioso
Orgulhoso de si que só
Fecha o nó da imaginação
O final de uma linda canção
De um agir pela destruição
Na ordem do caos que se aproxima
O lugar está vago e determina
O caminho do meu próprio mundo
O mergulho em mim, profundo
Será.
Pra quem quiser ver.
Será.
Porque assim tem que ser.

25/07

sua ambição explodiu, escorreu e arranhou o céu

um rasgo do tamanho da ambição
fenda afunda no fundo do peito
arranhão
arranha-céu, guarda-sol, louva-a-deus
o rastro é vermelho-sangue-chocolate
caminho abandonado
mendigo embriagado
homem desabrigado
engraçado?
o herdeiro tem berço de prata
o bueiro tem cheiro de mata
trata
seus olhos com a cerimônia que merecem
se esquecem
dos tantos anos de batalha
canalhas

um buraco do tamanho da ambição
o escuro vazio no seu coração
vago, largo, cego, magro
enfio a mão suja no seu peito aberto
me perco
enquanto me esqueço
e te mantenho por perto
cemitério vivo
perigo
uma fenda fatal na escuridão
traição
o gosto amargo da submissão
o rasgo, o estrago da sua ambição.

27/07

Poema da morte antecipada

Singela
Sincera
Pergunta
Assusta;
Seria
Sabia
Da sua
Angústia?
Pudera
Pondera
Pandora
Agora
Embora
Estivesse
Em cima
Da hora;
Por fora
Não fora
A forca
Senhora
Quisera
Tentara
Tivera
Acabara
Partira
Deixara
Partido
Deixado;
Deixado
Deitado
Deixando
Ficar
Sozinho
Sofrendo
Não pôde
Esperar.

10/08

Campanha da alta hora

Caça
Solta
Passa
Volta
Volto
Ao mistério da noite que se lança
Escura até onde o medo alcança
Parte
Corta
Arde
Força
Forço
O corpo se rasga em pedaços no chão
O roto espalha migalhas na mão
Fala
Corre
Mata
Morre
Morro
Por um, por dez, por cem
Por si, por não, ninguém.

13/08

ressurreição do mar de ferro

enterrado no profundo
fundo farto mar de ferro
jaz o coração de quem amou
e temeu, e sofreu
e sonhou
e morreu;

uma alma perdida se encontra por lá
à procura de vida
da beleza de estar
ser
sentir, viver;

há um corpo adormecido
no fundo do mar, um corpo doído
vencido, batido
arrependido
um corpo falido
sozinho no mar de ferro

e coração e alma e corpo
se encontram, se completam
se conhecem, se conectam
juntos, num só ser
com tudo a conquistar, a ver

o filho parte, caminhando por aí
o filho arte
viajante, caroneiro
destemido, aventureiro
corajoso, faz seu mundo
num silêncio, num segundo
tudo é, tudo jaz, tudo há
tudo em pé, tudo faz, tudo já.

18/08

Quantos todos tantos

Quantos cantos já cantados
e destinos mal-fadados
e suspiros exalados
e caminhos lamentados

Quantas faces conhecidas
e sementes escondidas
e amadas esquecidas
e batalhas já perdidas

Quantas mágoas dissipadas
e paixões não-dissolvidas
e palavras não-faladas
e questões mal-resolvidas

Tantas quantas são passado
Quantas todas são passagem
Muitas quantas foram fardo
Quantas sempre são viagem.


03/09

ruiva

Pé no chão
Terra molhada
Grama entre os dedos
A moça é deitada

Musa, ruiva
Pelo que espera?
Pelo amor que considera
E não lhe chega?
Paixão, sabor e dúvida
Pudera
Sozinha espera

Pela chuva, ruiva
A lhe molhar os fios vermelhos
Abençoando-a pelos cabelos
Tocada pouco a pouco em sua pele alva
Lembrada pelo céu
Pela chuva salva;

A ruiva levanta
Cansou de esperar
Caminha pra longe
Pra outro lugar

O amor não lhe chegou
Haverá alguém pra amar?
Veio a água e lhe salvou
Ela vai sem mais voltar

E amanhã, em outro chão
Outro porém, outro senão
A ruiva há de acreditar:
O sol virá pra lhe secar.

27/09

terra além do penhasco

Acima dos montes verdes
ao fim da noite
posso ver você
me chamando
me estendendo a mão;

Há um lugar, além do olhar
de sol nascente, brilhante
sorridente
crescente sobre mar e areia branca;

Deixo sua voz me guiar
obrigado;
e posso ver, posso estar
neste lugar,
a coisa mais bonita que já vi;

E lá estão vocês
num tempo parado
silencioso;
E lá estão vocês
me convidando pr'um abraço;

De pés descalços, flutuo
braços abertos
carregado de amor
cheio
inteiro
não mais distante;
lá estou eu
sendo o bastante;

E lá está você
trazendo pela mão
o perdão
dizendo que está tudo bem;

Meu próprio paraíso
livre de penar ou juízo,
meu abrigo aberto
vasto, completo
de erros, conquistas
e dores.
E amores. Todos amores.

E você, num vestido vermelho
do beijo, o nosso primeiro;
E você me leva além
e além, adiante
para ser o bastante, o bastante;

E vocês me abraçam, me tocam
e os corpos unidos nos completam
nos confortam
e há amor;

Vocês, meus amores,
dois amores
não há mais temores;

Estou aqui
e estamos todos.
Tudo que se queria ser
aqui
Todos. Nós.
Amado, completo
repleto
realizado;

Além da montanha,
além do penhasco
e eu estou com vocês.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 11/12 - Um outro de ti

11/12

Um outro de ti

E se mais de um de você
De mim, talvez de todos nós
Houvesse por aí?
Sendo você, vivendo em outra vida
Com outro nome, mas você
Em outra parte deste mundo, mas você
Parte de outra família
Amante de outra mulher, mas você;
E um dia, quem sabe,
Encontrar-se consigo mesmo
Numa esquina qualquer
Por uma chance do destino
E conhecer-se, descobrir-se
E ver-se em outro corpo, outro ser
Ou encontrar um amado perdido
Uma vez mais, numa névoa de memória
Em realidade;
E saber que quando se morre, ainda se vive
Para um dia morrer outra vez.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 10/12 - A consciência do coletivo

10/12

A consciência do coletivo

Quantos aqui sonharam nesta noite?
E quantos ainda dormem de pé?
E quantos pra sempre dormirão?
Quantos neste dia amarão?
E quais terão suas vidas mudadas pra sempre?
Quais seguirão?
E quantos passarão como mais um dia?
Todos sim, todos não
Todos aqui e todos em outro lugar
Onde?
Todos haverão
De ser um mesmo
Um dia
Amanhã ou depois
Ou quem sabe quando
E quem sabe quantos?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 09/12 - A tormenta

09/12

A tormenta

o frio do toque da sua mão
faz a tempestade dentro de mim
a ressaca do sangue
a chuva no rosto
no peito, o trovão
e navegando na tormenta
minha paixão
comandante de um navio à deriva,
a alma do meu coração
consumida na correnteza
num mar escuro, inseguro
afogada na certeza do futuro
o furo no fundo do barco
destino, mergulho, naufrágio.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 08/12 - Dia branco

08/12

Dia branco

Sou menino
Brincando no branco
Caminhando no escorregadio
Como se tomando banho de chuva
Pela primeira vez

Sou menino
Com floco de gelo na ponta do nariz
Sorriso molhado
No gelado despertar desta manhã
Com frio no rosto
E calor no peito

Sou menino
Vendo o céu nublado em pedacinhos
Caindo suave pelo ar
Derretendo melancólico no chão.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 07/12 - ЯOЯЯIM

07/12

ЯOЯЯIM

Who is this guy
Looking me in the eye?
Will I ever find out
What he's all about?

Should I tell him what I know?
All those places I want him to go;
The path not to follow
The high hope for tomorrow;

Will he ever understand
What he has in his hands?
This man often smiles back at me
I think he knows who he's supposed to be

And so he is, and so I do
And so it is, and so it's true.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Um poema por dia - 06/12 - Canto de dias e noites brancas

06/12

Canto de dias e noites brancas

a caminho de casa
estou acordado
surpreso com os pelos no meu rosto
estendo minha asa
e voo com gosto
sobre a cidade sorridente
contente
vejo com o vento nos olhos
a cor do meu povo
e o calor do novo
me derrete do ar
e me joga direto neste mar
branco, de volta no dia santo
à noite adorar.