Encruzilhada

Encruzilhada

sábado, 27 de dezembro de 2014

Salgado, Wenders e o tempo


Texto originalmente publicado no ORNITORRINCO

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; (...) rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo (...), brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira (...); pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas (...).”

Cito Raduan Nassar em 'Lavoura Arcaica' para falar de Sebastião Salgado. E Wim Wenders. Dois homens que sabem brindar com o tempo.

Acabo de assistir ao documentário ‘O Sal da Terra’, sobre Sebastião Salgado, dirigido por Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, filho do homem. E sinto que algo mudou em mim.

Acredito profundamente que a arte transforma. E que alguns filmes podem mudar você. E se não você, alguma coisa em você. Lembro de sentir algo assim quando assisti pela, sei lá, quinta vez, ‘2001 – Uma Odisseia no Espaço’. Depois de ter tentado a experiência algumas vezes quando novo, agora estava mais maduro e mais perto de arranhar a compreensão da obra. Algo semelhante aconteceu com ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’. ‘Melancolia’, de Lars Von Trier, que assisti praticamente sozinho numa salinha de Santa Teresa, mudou minha forma de ver o cinema moderno. E o próprio Wenders ganhou um lugar especial na minha memória quando me apresentou Pina Bausch mais de perto em seu ‘Pina 3D’. Lembro do mestre Adriano Garib aos berros nos ensaios de uma peça na escola de teatro:

- Vocês querem ser artistas, vão ver ‘Pina 3D’! Tá pensando que ser artista é mole? É trabalho, trabalho e trabalho!

Há muito trabalho em ‘O Sal da Terra’. E há muita coisa especial. Há a história do jovem criado em fazenda que vira economista na cidade, e se descobre fotógrafo, artista. Há a história de Sebastião e Lélia, parceiros de trabalho e de vida, amantes há quase 50 anos. Há a história do filho que sempre viu no pai - ausente em viagens pelo mundo - um aventureiro e que agora pode segui-lo numa de suas aventuras. Mas todas essas pequenas histórias são pinceladas do tema principal: o trabalho de Sebastião Salgado.


Wim Wenders e Sebastião Salgado


Pessoalmente, acho um alento ver um filme sobre o trabalho de uma pessoa, ou um que se apropria da arte do artista para criar um tributo em vez de se limitar jornalisticamente à história do biografado. Alguns bons exemplos de ousadias narrativas bem sucedidas me vêm à cabeça: a ficção ‘I’m Not There’, sobre Bob Dylan; ‘Jards’, filme-ensaio de Eryk Rocha sobre Jards Macalé; o fantástico filme-poema ‘Elena’, de Petra Costa; ou o já citado ‘Pina 3D’.

Em ‘O Sal da Terra’ há vislumbres da vida pessoal do brasileiro. Mas, focando no trabalho de Salgado, Wim e Juliano evitam a armadilha personalista. E o fotógrafo escapa sem ser mitificado pelo projeto. Despido de valores e signos publicitários como consumo, dinheiro, fama e sucesso, este filme mergulha na reflexão e na contemplação. Por isso somos capazes de admirar profundamente a arte de Sebastião sem sermos oprimidos pela figura dele.

E acabamos então conhecendo mais do retratado, mas o fazemos através do que importa, no fim das contas, em se tratando de um artista: sua obra.

Através de suas fotos, acompanhamos a jornada de um exilado em sua saudosa América do Sul, e as andanças de um homem ávido por conhecer o seu próprio país, em travessia pelo nordeste brasileiro. Ou a sua gente, habitantes de desertos de fome da África, fábricas do leste europeu e dos confins do planeta ainda intocados. Sempre numa busca pelo registro da condição humana. E indo da desilusão com a nossa espécie ao ressurgimento da esperança no reencontro com a natureza.

Uma coleção poderosa de retratos da humanidade, por vezes, em sua face mais cruel. Miséria, fome, violência. Existe uma discussão sobre se a obra de Sebastião estetiza a miséria, esvaziando a força das situações ali representadas com seus registros em preto e branco, quadros bem compostos e jogos de sombra e luz. Acho um debate relevante, mas tendo a me posicionar ao lado de Salgado.

E, de tão maravilhado, quase chego a não acreditar no que vejo, no momento em que ele registra os índios da tribo Zo’é, em cores de pele morena, folhas verdes e tinta vermelha de urucum como nos mostram as lentes de Wenders e Juliano.

Salgado é um andarilho com muito para contar, muito para mostrar. Alguém que escreve com a luz, como a inspirada abertura nos conta. E é emulando o tempo do próprio fotógrafo, homem de paciência, fala calma, e portador de uma energia pacífica que chega a passar para o lado de cá da tela, que Wim Wenders nos apresenta a seu trabalho.

Talvez seja cedo para dizer que algo mudou em mim depois desse filme. Mas o sentimento está lá.

Tudo a seu próprio tempo.

Edição
Gabriel Pardal

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Poema da lua nova na nova York

Esta noite a lua se incendeia no céu
Esfumaçada, se desfaz, entre a escuridão
Nua lua nova de verão;
Mas não na nova York, meu irmão,
Que não tem lua e não tem céu
Só tem chão
Que o céu foi arranhado
E a lua se apagou
E refletem-se no lago
Que a terra acordou
Gigantes de pedra, tão cheios de luz
Que o homem criou.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

'O Abutre' é mais do que sobre jornalismo

Antes de tudo, vá assistir ‘O Abutre’ (Nightcrawler, no original). É uma pérola, uma preciosidade e, provavelmente, por ser um lançamento menor numa época de arrasa-quarteirões de fim de ano e candidatos aos prêmios da temporada, corre o risco de ficar em cartaz por pouco tempo e passar quase despercebido.

O título, possivelmente sem intenção direta, remete ao clássico de Billy Wilder, ‘A Montanha dos Sete Abutres’ (Ace in the Hole, no original), com Kirk Douglas no papel de um jornalista que explora ao máximo – com consequências trágicas – a história de um homem preso em uma mina.

De fato, não é de hoje que o jornalista – em especial o sensacionalista – carrega consigo a analogia de um abutre em busca de carniça. ‘Se tem sangue, é notícia’, diz aqui o personagem de Bill Paxton, um veterano cinegrafista. A editora Nina (Rene Russo), em outro momento, descreve: ‘Imagine o nosso jornal como uma mulher aos gritos, com a garganta cortada, correndo pela rua’.
‘O Abutre’ segue Louis Bloom (Jake Gyllenhaal), um determinado jovem que vive sozinho em Los Angeles e não mede esforços na busca por um trabalho. Inicialmente um ladrão, ele acaba se lançando como cinegrafista freelancer atrás dos furos de reportagens sangrentos da madrugada.

Numa primeira leitura este pode parecer um filme sobre jornalismo moderno, mídia e os limites na busca pela notícia e a audiência. Mas acredito fortemente que há um conteúdo muito mais complexo e profundo do que o apresentado em primeiro plano por Dan Gilroy (roteirista já cinquentão, estreando aqui na direção em grande forma). Penso que este é um retrato quase satírico sobre ambição corporativa, o sonho americano, e no grande espectro, sobre a pior face do capitalismo.
Louis Bloom tem a determinação e visão que muitos chefes gostariam de ver em seus empregados. E conforme cresce na profissão, seu discurso se parece cada vez mais com um gestor de uma grande empresa. Autodidata, ele aprende rápido e tem na internet sua fonte de conhecimento. É dali que vem toda sua retórica corporativa. ‘Você pode encontrar tudo que quiser se procurar o suficiente’, ele diz.

No decorrer da narrativa, Louis de certa forma se torna um empresário, mergulhando num jogo de oferta e demanda, e transcendendo a discussão ética da sede pela tragédia alheia ao não enxergar problemas em invadir a casa de uma família que acaba de passar por um tiroteio ou até mesmo manipular a cena de um acidente ou de um crime. Tudo pela valorização do seu produto final -com sabotagem da concorrência no caminho. Em alguns anos de jornalismo, guardadas as devidas proporções, posso dizer que vi coisa parecida. 

Com os competidores fora do caminho e sua empresa em crescimento, Louis adota estratégias de marketing, elimina o intermediário, valoriza a sua marca. Cria um nome para sua empresa, exige que suas imagens sejam creditadas, que seu nome seja repetido pelos âncoras. Ele sabe o valor do seu produto e aprende a barganhar e maximizar os lucros por isso.

As cenas de entrevista de emprego e negociação de aumento de salário, ambas entre Louis e seu assistente, Rick (Riz Ahmed), poderiam ter saído de um drama corporativo. A impressão crescente é realmente de que esta não é uma narrativa realista, e sim um sinistro e sombrio comentário político e satírico do sonho americano de sucesso financeiro e ascensão social. Um sentimento acentuado pela fotografia de Robert Elswit (parceiro do cineasta Paul Thomas Anderson) que, como apontado pelo crítico Anthony Lane, da The New Yorker, apresenta uma Los Angeles que tem um quê de David Lynch, “onde a escuridão cai e mesmo os dias parecem sempre noite”.

Minha teoria é corroborada ainda pela música deslocada de James Newton Howard, que de início incomoda por sua dissonância em relação ao tom do filme, mas no decorrer da história se encaixa perfeitamente na proposta cínica de Gilroy; e pela fala do protagonista que fecha o frenético e fantástico clímax, explicando o que já entendemos pela oportunidade de uma última pérola do discurso empresarial. Discordo apenas da necessidade da cena final de interrogatório. Acho que o filme poderia ter se encerrado minutos antes de forma mais concisa e eficiente.

Toda a estrutura afiada de ‘O Abutre’, no entanto, não funcionaria sem um bom ator no papel central. E Jake Gyllenhaal merece todos os aplausos aqui. Admiro atores que tomam caminhos inesperados e tem sido interessante acompanhar os últimos passos de Gyllenhaal. Depois de construir desde jovem uma carreira equilibrada entre projetos maiores e filmes independentes, de uns anos pra cá Gyllenhaal alterna passagens pelo teatro com ótimos trabalhos no cinema americano, se colocando a serviço de jovens e novos diretores e associando-se a um dos mais arrojados realizadores da atualidade, o canadense Denis Villeneuve, responsável pela obra-prima ‘Incêndios’ e com quem Gyllenhaal filmou ‘Os Suspeitos’ e o sensacional ‘O Homem Duplicado’, um dos melhores filmes deste ano.

Em ‘O Abutre’, na caracterização física, no olhar, na postura, no tom de voz e no padrão de fala, ele entrega uma atuação que balanceia sociopatia e carisma. Louis Bloom cruza muitas linhas, não tem limites ou escrúpulos que o parem em sua escalada. Mas como o Coringa em ‘O Cavaleiro das Trevas’, não conseguimos desviar o olhar, fascinados que estamos para descobrir até onde ele vai e do que mais é capaz. E isso é mérito de sua performance.
Outro destaque a ser dado é para o ator Riz Ahmed que, no papel do assistente Rick, divide a cena com o protagonista de igual pra igual em todos seus momentos, com muito menos material à sua disposição.

No fim das contas, o sistema engole tudo. Da jornalista cinquentona, já aposentada do vídeo, que faz de tudo para manter-se no pouco mercado que ainda lhe resta, ao jovem sem-teto que precisa de um trabalho, ainda que moralmente condenável e mal remunerado. Louis Bloom, por outro lado, encontra seu lugar. E sua falta de humanidade, assim como seu modo de pensar e agir no decorrer de toda sua jornada não me deixam dúvidas. Está tudo no olhar: ele e o capitalismo foram feitos um para o outro.

Texto originalmente publicado no Diário do Centro do Mundo

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Das repetições e variações

Viagem quando viajar
Caminhar em caminho caminhado
Sonhando um sonho, sonhar
Amando amar alguém amado

Procurando ainda é procurado
Perder perdendo-se no perdido 
Chorar nunca chorado
Esquecer se esquecido

Pedir pedindo pedido 
Terminado, terminando ou para terminar 
Sentindo o sentido 
Beijado beijo, beijando, beijar e e beijar 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A estrada

Me gusta la estrada
Sempre crescimento
Seu gosto, sua cara
A caminho, em movimento
Curva por curva na estrada
Até chegar, curva por vez
E descobrir n'algum lugar
A próxima reta da jornada

A estrada é essa vida
Vida nossa partida
Pudera eu como estrada existir
E sendo, poder estar
Tanto aqui como aí

Mas a estrada nos separa
E entre as serras e praias e mar
E as estradas de nós todos juntos
Vemos que ela sempre esteve lá

A estrada do pai, caixeiro-viajante
E da mãe e dos filhos de fim de semana
Do mais velho, o primeiro da fila adiante
Do segundo, sozinho, à sua maneira
Do mais novo, o caçula
Aluno de todos
Colecionador da vida inteira

Navegantes, passageiros
Queria vocês aqui
De chegada em chegada;
Seguindo nosso caminho, sigo sozinho
Nessa história, nessa vida
Nessa estrada.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Texto meu no DCM: Os Dardenne, o Brasil e o voto

Quem não está de um lado está de outro: os Dardennes, o Brasil e o voto

Postado em 09 out 2014
qwer
Impedido de votar por morar nos Estados Unidos e manter o título de eleitor no Rio de Janeiro, me enfiei numa sala escura no último domingo. Por ocasião do Festival de Cinema de Nova York, consegui pegar uma concorrida sessão de ‘Dois dias, uma noite’, novo filme dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne.
Apresentada pelos próprios diretores e pela protagonista, Marion Cotillard, a exibição me lavou a alma e me deixou com muito para refletir durante o resto do dia em que o Brasil escolhia seus representantes nas urnas.
Os Dardenne começaram fazendo documentários nos anos 70 e migraram para a ficção no começo da década de 90. A dupla chamou a atenção com ‘A promessa’, de 1996, e levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1999 com ‘Rosetta’. Desde então, a cada três anos lançam uma nova obra premiada em Cannes. ‘O filho’, de 2002, e este último, ‘Dois dias, uma noite’, levaram os prêmios do Júri Ecumênico; ‘A criança’, de 2005, deu aos dois mais uma Palma de Ouro; ‘O silêncio de Lorna’, seu filme seguinte, foi escolhido na categoria roteiro; e ‘O garoto de bicicleta’, de 2011, recebeu o Grande Prêmio do Júri, o segundo mais importante da mostra.
Cronistas dos personagens descartados da sociedade, o duo desenvolveu a ideia para esta última pérola quando as consequências da crise econômica de 2008 começaram a aparecer mais claramente na Bélgica.
O enredo do filme pode ser resumido em uma frase: depois de seus colegas votarem por sua demissão em benefício de um bônus de mil euros, a operária Sandra (Cotillard) tem um fim de semana para ir atrás deles e convencê-los a mudar de ideia na nova votação que acontecerá segunda-feira. Luc conta, no bate-papo após a sessão, que leu num livro o caso real de uma pessoa que perdeu o emprego depois que a empresa ofereceu aos trabalhadores a escolha de manter o companheiro ou levar um bônus pra casa.
São muitas as camadas para se pensar sobre este filme, assim como sobre a obra dos Dardenne em geral. Sempre contando histórias da classe trabalhadora, os dois são considerados herdeiros do neorrealismo italiano também por seu estilo naturalista. Toda a simplicidade de sua proposta se traduz em refinamento e busca pelo essencial da linguagem cinematográfica. Os dois quase não usam trilha sonora, a não ser quando realmente querem marcar uma passagem da narrativa.
Em ‘Dois Dias, uma noite’, a música aparece basicamente no rádio do carro, e nos dois momentos em que se faz presente, é para marcar a mudança no estado de espírito da protagonista. É de se notar ainda a atenção especial que dedicam à composição de quadros e ao uso das cores. Num desenvolvimento da movimentação da câmera, de repente nos vemos assistindo a uma cena numa sala toda azul, ou com uma parede de tijolos vermelhos ao fundo, às vezes com personagens emoldurados num simbolismo do momento em que se encontram, ou diante de um muro dividido que também ressalta o tema da cena.
qwe
Exemplo da cuidadosa composição de quadro dos Dardenne
Jean-Pierre e Luc filmam sem alarde, num estilo autoral com poucos cortes, planos-sequência longos, porém dinâmicos, e um trabalho fenomenal de direção de atores, com cada personagem deixando sua marca, ainda que com pouco tempo de tela.
Também após a sessão, Marion Cotillard – uma excelente atriz que alterna trabalhos na Europa com grandes produções nos EUA – disse que colaborou com muitos diretores com quem pensou que teria uma conexão especial, o que de fato não se realizou. E quando pensava que isso simplesmente nunca aconteceria, trabalhou com os irmãos belgas, na melhor experiência de sua vida como atriz: “A liberdade era tamanha que eu sentia que poderia fazer qualquer coisa.”
Em ‘Dois dias, uma noite’, a luta de Sandra, casada e mãe de dois filhos pequenos, é também uma luta por sua vida. Quando recebe a notícia de sua demissão, ela ainda se recupera de uma profunda crise de depressão que a colocou de licença médica. Tanto os diretores quanto a personagem principal – e consequentemente, o público – entendem a razão dos que votaram pela exclusão de Sandra. E enquanto ela bate de porta em porta para convencê-los a mudar de voto, a tela se povoa de tipos humanos. Especialmente em tempos de crise, todos têm seus motivos.
qwert

O que finalmente me traz de volta à discussão sócio-política trazida pelos Dardenne. Sem usar um discurso panfletário, os dois estabelecem o espelho de um sistema político e social. E no dia em que uma eleição no Brasil alcançou 27% de votos brancos, nulos e abstenções (como a minha), a maior porcentagem desde 1998, assisto o diálogo da protagonista ao telefone com o primeiro colega abordado: ‘Abster-se não é o bastante, desculpe. Eu preciso que você vote por mim’.
Ela acaba sabendo ainda que um superior teria colocado medo nos trabalhadores, dizendo que alguém teria que ser demitido eventualmente. Impossível não pensar no medo usado por mais de um lado na campanha eleitoral em 2014. ‘Antes ele do que eu’, é o que diz o capital.
Num país ainda assombrado por pragas como o classismo, o racismo, a homofobia e a maior delas, a desigualdade social, como não refletir diante de um filme que discute o coletivo e o individual num sistema que lança pessoas umas contra as outras num ‘salve-se quem puder’? E que ainda estabelece como redenção para a protagonista o direito de se defender, de se expressar e de decidir seu destino? Perco a conta de quantos dos visitados por Sandra se defendem, dizendo que ‘não é culpa deles se lhes foi colocado para escolherem entre ela ou o bônus, é o sistema’.
Argumentam ainda que ‘não votaram contra ela, mas a favor deles’. Sim, todos têm suas razões. Mas ao mesmo tempo, ninguém pode escapar de suas escolhas. E quer queiram, quer não, numa disputa de interesses, assim como na luta de classes, quem não está de um lado está de outro. Questões muito relevantes, especialmente pra quem acha que política só se faz na capital federal ou no dia da eleição. Política se faz todo dia. E toda noite.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Colaboração com o ORNITORRINCO

Texto originalmente publicado no ORNITORRINCO

CONQUISTA SANGRENTA E O RETRATO DE UMA TERRÍVEL ÉPOCA DA HUMANIDADE



Desde sempre, carrego o cinema comigo. Os filmes que vi formaram grande parte do meu imaginário. E pelos cantos que andei, eles, os filmes, sempre foram a constante fonte das minhas referências. Assim sendo, especialmente quando conheço um lugar novo, acabo retornando para algumas dessas referências ao voltar pra casa.

Toda essa introdução é para justificar o uso dessas linhas para falar de um filme de 1985, quando eu sequer era nascido.

Também sempre fui fascinado pela cultura medieval e, depois dos vinte dias que passei visitando castelos em Portugal, voltei com a vontade de rever um velho e obscuro filme: Conquista Sangrenta (Flesh + Blood no original).

A memória da adolescência me trai, mas acredito ter descoberto essa pérola numa sessão na madrugada da TV Globo. Desde então, fez parte da minha abandonada coleção de fitas. Lembro de, à época, ter me impressionado com o retrato sujo da Idade Média que o diretor holandês Paul Verhoeven pintou no seu primeiro filme americano, e com a revisão que fiz semana passada, passei a abraçar ‘Conquista Sangrenta’ como um dos mais interessantes filmes já feitos sobre o período medieval, uma opinião que, pelo que descobri na internet, não é exclusivamente minha.

O ano é de 1501, Europa Ocidental. O filme começa com a batalha de um nobre para retornar à cidadela da qual foi expulso. Ele conta com um experiente capitão comandando um exército com vários mercenários, a quem é prometido o direito de saquear a cidadela, uma vez ela retomada. Após a vitória, o nobre obriga o capitão a trair os mercenários, que acabam expulsos do lugar e tornam-se uma espécie de gangue de ladrões andantes.

Originalmente, a ideia de Verhoeven era focar a história na relação de Martin, líder dos mercenários (interpretado por Rutger Hauer), com o capitão que o traiu. Por pressões do estúdio, a narrativa acabou alterada para se concentrar no triângulo amoroso entre Martin, Agnes (Jennifer Jason Leigh), a moça que o grupo acaba sequestrando, e Steven, filho do nobre do começo do filme e um homem da Renascença, a quem Agnes estava prometida.

A produção internacional, filmada na Espanha com atores de várias partes do mundo, é recheada de histórias. As interferências do estúdio irritaram Verhoeven, que quase foi demitido e, posteriormente, declarou ter sido esta a pior experiência de sua vida, tendo inclusive feito com que ele considerasse abandonar o cinema. O que não aconteceu. Verhoeven seguiu carreira muito bem sucedida nos EUA, sempre com cinismo, acidez e uma dose de análise social. Dirigiu RoboCop, O Vingador do Futuro, Instinto Selvagem, e caiu em desgraça com a bomba Showgirls.


O estilo improvisado adotado pelo holandês causou atrasos nas filmagens, afetadas ainda por problemas com o tempo, levando o filme a estourar o orçamento. Segundo informações do IMDB, atores consumiam drogas e álcool no set e o relacionamento entre as equipes era péssimo.

As tensões entre o diretor e seu conterrâneo e parceiro de longa data Rutger Hauer interromperam a amizade e a rotina de colaborações entre os dois, que discordavam sobre a abordagem para o personagem Martin. Segundo a biografia de Verhoeven, escrita por Douglas Keesey, Hauer queria fugir dos tipos vilanescos, como acontecera em Blade Runner e como acontece invariavelmente com atores estrangeiros.

Em uma entrevista disponível no youtube, o já falecido ator americano Brion James também assume que foi a pior experiência de sua vida. Ele diz que Verhoeven, apesar de talentoso, é um maníaco controlador que tratava o elenco como gado, o que só piorava com o frio nas locações e a falta de segurança na hora das cenas de ação, encenadas sem dublês. O próprio James assume, ”acabou sendo o melhor filme de Idade Média que eu já vi, mas não valeu a pena”.

Fascinante é ver como, apesar de todos os problemas, ‘Conquista Sangrenta’ se mostra um filme singular. Acostumado a ver o período medieval romantizado no cinema, a intenção de Verhoeven era mostrar como era uma época terrível para se viver. E mesmo com a interferência dos estúdios, está tudo lá, num mundo de trevas, cru, sujo, cheio de miséria, sexo, ambiguidade moral, religiosidade manipuladora, brutalidade e peste bubônica.

Ninguém se salva, ninguém é mocinho, e todos parecem bandidos. O mais próximo de uma exceção moral é o personagem Steven, o homem renascentista, recém-chegado de ter completados seus estudos na universidade e ansioso para por seus conhecimentos e invenções em uso no campo de batalha.

A personagem de Jennifer Jason Leigh também é muito interessante, pois é uma donzela virgem que aprende rapidamente como manipular sexualmente os homens, mas com legítimo intuito de sobreviver. Numa das cenas mais fortes e famosas, Agnes reverte o estupro que está sofrendo por Martin e acaba convencendo-o a mantê-la só para ele, evitando ser violada pelos outros membros do grupo.

E finalmente, o equilíbrio de forças entre as ideias de Rutger Hauer e do diretor Paul Verhoeven geram em Martin um personagem complexo, um homem de seu tempo, violento, heroico, trapaceiro, manipulador e brutal.

Não se engane pelos pôsteres de divulgação que você encontrar na internet, que parecem anunciar uma fantasia medieval. Apesar da sua trilha sonora, um dos únicos pontos dissonantes do clima do filme na minha opinião, ‘Conquista Sangrenta’ é o retrato honesto de uma terrível época da humanidade.

Trailer

Lucas Gutierrez é ator, escritor e jornalista.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

perder as contas


























peito com peito
posso ouvir a pulsação
seu coração eu sei de cor;
a batida em batalhão
bateria dentro de mim;
fecha-me em teus braços
e não me tira desta cama nunca mais
que eu me alimento
de tempo
e de cada centímetro de corpo;
meu passatempo
contar os pontos
aos poucos
perder as contas
e amanhã começar tudo de novo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

dead killed love is dead died love

Shall we call it love 
The one who lives?
Or who resists?
Love is love when it ends
Surviving love transforms
Itself in something more
Precious thing
Nameless anything

But no love no more.

Unrequited love, one way love
Lives the love that never was
But if never was, can it live?
Can it be?
Is it living to exist in dream, desire, fantasy?
This too, shall not be love then.

And what shall love be so?

Name as you please everything else, though
Comes a time when love can no longer thread;
Love is the one who dies
Love is not love if not dead.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

amor de morte matada é amor de morte morrida

Chamar-se-á amor aquele que vive?
Ou o que resiste?
Amor que é amor acaba
Amor que se transforma sobrevive
E vira algo outro, qualquer coisa preciosa
Coisa sem nome, essa, valiosa.

Mas não mais amar.

Amor sem resposta, amor de via única
Vive o amor que nunca foi
Mas se nunca foi, como poderá existir?
Como poderá ser?
Será viver existir em sonho, desejo e fantasia?
Este também não será amor senão.

E qual será amor então?

Chame o que quiser
Tudo mais que houver
Chega o dia em que amor não pode ser
Amor é o que morre
Amor não é amor se não morrer.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Colaboração com o DCM - Os EUA e o 11 de setembro

Texto originalmente publicado no Diário do Centro do Mundo.

O que os Estados Unidos aprenderam com o 11 de Setembro?


Postado em 15 set 2014

A história sendo feita
A história sendo feita
Eu lembro onde estava no dia 11 de setembro de 2001. Diz-se que em determinados acontecimentos de relevância mundial, todo mundo lembra onde estava. Era a semana de provas no primeiro ano do Ensino Médio e eu tinha acabado de sair de um teste de Geografia quando cheguei em casa por volta das 9h30 da manhã, liguei a televisão e vi o que estava acontecendo nos Estados Unidos. Mais tarde naquele dia, meu irmão mais velho me levaria para garimpar edições extraordinárias de jornais e revistas em bancas e livrarias. Era a História acontecendo.
Treze anos depois, moro em Nova York. Cheguei aqui há pouco mais de um ano, e antes disso tudo, o que conhecia da cidade vinha do cinema americano e do seriado Friends. Estar finalmente aqui depois de consumir tanta coisa relacionada a Nova York criou uma sensação estranha em mim. Eu não conhecia a cidade, mas era como se conhecesse. Hoje posso dizer que sei meus caminhos por aqui.
Estudei durante seis meses no bairro do World Trade Center, o Financial District, no sul da ilha de Manhattan. Por conta de um trabalho, voltei a frequentar a região nessas últimas semanas. Há algumas noites, dois fachos de luz paralelos se erguiam do chão ao céu escuro e nebuloso. Era o ensaio para o que fazem todo 11 de setembro desde 2001. ‘Nunca esqueça’, é o lema dos americanos para o acontecido.
Estando aqui há mais de um ano, conhecendo a dinâmica do funcionamento da cidade, a cara do modo de vida nova iorquino e tendo visto a cultura americana por dentro, posso começar a tentar compreender o que significou aquele dia para quem vivia aqui. Uma série de comparações do site Buzzfeed mostra fotos dos mesmos locais em 2001 – como os vi pela TV – e hoje – como os vejo no meu dia a dia.
Um professor, morador da região à época, contou-me uma bela história de como teve que andar algo como 60 quadras ou mais com a mãe idosa, uma vez que os três pararam de funcionar. Impedido de voltar pra casa por três meses, ele descreveu como foi quando retornou, depois de passar por mais de um posto de controle militar. E o momento em que colocou a Nona Sinfonia de Beethoven para tocar alto na janela do seu apartamento coberto de poeira, detritos e sujeira.
Outro professor me contou como vários amigos revoltavam-se com os turistas americanos ufanistas e fanáticos bélicos que vinham salivando em busca de detalhes, querendo ver o Marco Zero e tudo mais. Hoje há um museu/memorial para o 11 de setembro. Eu não o conheço. E confesso que não sei direito o que pensar sobre a loja do local, que vende de camisetas, agasalhos, bonés, gravatas, livros e documentários com a temática.
Em um excelente artigo publicado no The Guardian, Ali Soufan, ex-agente do FBI e especialista em contraterrorismo, analisa como as decisões do governo americano acabaram levando o país a lutar a mesma guerra todos os anos, há treze anos, e fortaleceram a ideologia de Osama Bin Laden ‘além de seus maiores sonhos’, desaguando no Estado Islâmico (ISIS), o atual maior problema para a política internacional de Barack Obama. Segundo Soufan, os EUA optaram por caçar Bin Laden em vez de destruir seus ideais, concentrando-se mais na perspectiva americana sobre os terroristas, do que no pensamento dos terroristas sobre os americanos.
Ele ainda completa tentando abrir um caminho sobre o futuro da região:
“O enfrentamento militar é inevitável porque palavras não vão derrotar o Estado Islâmico e o seu armamento pesado, mas não pode haver uma solução puramente militar, e esta não pode ser levada a cabo pelo Ocidente. Quando Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Iraque, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Líbano, Turquia e, sim, até o Irã, finalmente agirem como se o futuro da região deles estivesse em risco, só então a maré irá virar”.
Sempre que passo por perto da área do WTC, olho pra cima e vejo o arranha-céu erguido e ainda não finalizado. Com sua antena alcançando 546,2 metros de altura, o prédio é o mais alto do Ocidente, ainda maior que as torres originais (417m cada, com a torre norte chegando a 526,3m também por conta da antena). E sempre me pego lamentando que os Estados Unidos não tenham aproveitado o momento para repensar seu papel no mundo e refletir sobre o custo de suas ações na política internacional, em especial no Oriente Médio. Em vez disso, revidaram violência e terror com mais violência e terror. E ergueram um prédio mais alto, apelidado de ‘Torre da Liberdade’.
Lucas Gutierrez
Sobre o Autor
Lucas é ator, poeta, escritor e jornalista.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Colaboração com o ORNITORRINCO - Memórias de Portugal

MEMÓRIAS DE PORTUGAL



Há muito penso que conhecer o país de alguém favorece uma maior compreensão deste alguém. Num paralelo talvez não tão exagerado, fui a Portugal esperando entender um pouco mais sobre o Brasil.

Para alguém nascido, criado e vivido no Brasil, Portugal é o que na cultura pop chamamos de prequel, isto é, uma sequência, continuação, que na verdade relata acontecimentos cronologicamente anteriores à obra original.

Pois uma vez na terrinha, é fantástico notar inúmeras semelhanças entre nós e eles. E no processo, perguntar, ‘será daí que vem?’.

O trato afável e prestativo, seja com alguém pra quem se pede informação na rua ou para o garçom bom de papo, me parecem muito familiar. Assim também o é o comportamento expansivo e barulhento que observo nas cidades grandes, pequenas e praianas por onde passamos.

Também por mais de uma vez, dei com um certo ‘jeitinho português’ pela frente. Aqui preciso dizer que acho o desrespeito pelas regras um problema sério e complexo no modo de vida brasileiro. Mas também acho que por vezes trata-se de bom senso. É proibido comer no Oceanário de Lisboa. O segurança nos avisa, repreendendo pela banana que minha esposa come, mas logo diz que podemos terminar o lanche há alguns metros dali, ‘onde não há câmeras de vigilância’.

Em duas cidades mais turísticas vejo um ou dois flanelinhas. Em mais de uma ocasião, encontro um monte de carros em estacionamento irregular. Nas cidades maiores, perdi a conta das vezes em que me ofereceram cocaína e haxixe na rua.

Mas é a arquitetura que me chama atenção. As ruas estreitas, as calçadas de pedras (nem todas inteiras, vale dizer), as igrejas barrocas, os palacetes neoclássicos. Está tudo lá, como cá.

E finalmente entendo de onde vem o modo como um homem como o meu pai se veste. E talvez como o seu pai, o seu avô. Morando há um ano em Nova York, cidade habitada por gente de todo o mundo, muitas vezes consigo identificar brasileiros como eu apenas pelo comportamento, pelo modo como falam inglês ou pelas roupas que estão vestindo. Assim como não é muito difícil identificar um estrangeiro passeando em terras brasileiras.

E no que diz respeito à maneira de se vestir, a familiaridade entre Portugal e Brasil é incrível. Seja nas ruas e nos corpos dos locais, seja nas vitrines.

Em algum nível – e perdoem-me se isso soa exagerado – é quase como uma amostra imaginária de um pedaço do Brasil na Europa.

Este sentimento se amplifica com a identificação linguística. Como é reconfortante chegar a outro país, num outro continente, em que falam a mesma língua que você. Num modo de falar às vezes engraçado e bonito na maneira como palavras simpáticas como miúdo (em vez de jovem ou pequeno), bocadinho (no lugar de pouquinho), entre outras que soam bem aos ouvidos.

Sem contar o que batizei de permissividade lírica, quando os portugueses usam expressões que no Brasil ferem a língua, mas que cá soam quase como poesia popular. E assim, ouço sorridente um ‘mais pequeno’ ou ‘mais grande’ aqui e ali, ou um ‘obrigado nós’, em vez do ‘nós é que agradecemos’.

Os portugueses parecem possuir uma lógica própria no raciocínio. Talvez seja daí – e da vontade de dar uma sacaneada no colonizador – que venham as piadas.

- O que há do outro lado do rio? – pergunto a uma menina em Lisboa, de frente ao Tejo, referindo-me a parte urbana que vislumbro do lado de lá.

Ao que ela responde:

- A outra margem.

É como se levassem ao pé da letra cada frase ou questão. Talvez por isso, muito seja chamado pelo que de fato é. A rua da praia chama-se ‘Rua da beira da praia’. O salva-vidas eles chamam de ‘nadador salvador’. A região além do rio Tejo tem o nome de Alentejo, e por aí vai.

Os nomes em si se tornam uma atração à parte. Na estrada passamos por placas anunciando vilarejos como Aldeia das Gordas, Aldeia dos Cunhados, Orelhudo, e o campeão: Almoçageme.

Ainda diante do efeito do modo de falar português, ponho-me a pensar que a fala brasileira realmente parece um tipo de evolução da fala portuguesa, com a informalidade ganhando espaço e o relaxamento do aparelho vocal no ato de processar o discurso. Nós abrimos mais a boca, articulamos mais as palavras e diminuímos os atritos na emissão dos fonemas (ouvi muitos portugueses dizendo ‘xinquenta’ em vez de cinquenta, por exemplo, ou chiando no uso do ‘sc’ como em ‘piscina’ ou ‘seiscentos’).

Tendo estado em outras partes da Europa, não deixei de notar um sabor de decadência por onde rodei em Portugal. Por um breve período, os portugueses dominaram os mares, e consequentemente, o mundo. Mas os curtos tempos de glória não foram tão bem preservados como observo em muitos dos casarões e palacetes antigos nas ruas e becos das cidades.

Todo esse clima de decadência se acentuou com a crise econômica pela qual passa o país. Em abril, a taxa de desemprego chegou a 14,6%. No primeiro trimestre do ano passado, 42% dos jovens estavam sem trabalho.

Com a recessão, profissionais portugueses qualificados, famílias inteiras (incluindo crianças em idade escolar) e ainda pessoas com idade avançada, empregos duradouros e sem condições de arcarem com compromissos estabelecidos, emigram em busca de melhores condições de vida em outros países.

São dados de um relatório do Governo referente a 2013, atestando inclusive que Portugal é o país da União Europeia com maior emigração, com os emigrantes (2,3 milhões de pessoas) representando um quinto da população residente (10,5 milhões).

No total, viajamos 20 dias, cruzando (boas) estradas portuguesas com um pedágio atrás do outro, sendo ultrapassado por muita gente em altíssima velocidade – muito acima do limite – e passando, entre as cidades maiores, o litoral e as pequenas vilas, por mais de 30 cidades (sem correria, o país é pequeno).

Na despedida, imagino que Portugal, como excelente anfitrião, me dissesse ‘obrigado por ter vindo’.

Obrigado eu.

Lucas Gutierrez é ator, escritor e jornalista.

sábado, 30 de agosto de 2014

Poema da beira do lago

Filho único
de mãe solteira
melhor amigo
melhor amigo
do meu irmão;
o preferido
da padroeira
terceiro primo
segundo grau
meu tio avô
foi general;

imaginando
a vida andou
o imaginário
dorme e acorda
dia e noite
foi e voltou.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Arte e Herança da Escravidão - Nova Colaboração com o ORNITORRINCO

Texto originalmente publicado no ORNITORRINCO
Edição: Gabriel Pardal

ARTE E HERANÇA DA ESCRAVIDÃO



Sentado no lobby do hotel no Porto, em Portugal, enquanto esperava a conclusão do check in, notei uma estatueta na mesinha a minha frente. É uma pequena peça de uns 40 centímetros, um negro escravo altivo carregando uma bacia. Na bacia, o hotel oferece algumas balinhas de goma como cortesia aos clientes.

Paro pra pensar nesta figura, nesta pequena estatueta. Vem-me à mente o comentário de Spike Lee, que ao criticar negativamente "Django livre", filme de Quentin Tarantino, dizia ser a escravidão não um faroeste, mas um holocausto. Por conta da palavra usada por Lee, imediatamente retorno minha mente para o que está à minha frente e me pergunto: e se essa estatueta fosse a de um judeu com o uniforme listrado no campo de concentração?

A resposta é óbvia. Ninguém teria o mal gosto de manter uma peça dessas à mostra como decoração – talvez num museu, como parte de um acervo, mas nunca num hotel.

Exatamente por isso, minha pergunta inicial se mantém: o uso deste tipo de artefato como decoração é questionável?

Um poderia argumentar que a peça é histórica e por isso representa um momento da história e não uma fetichização da figura do escravo. Pois sim, a escravidão faz parte da História, foi o motor e símbolo da economia colonial por séculos. E é claro, nesse contexto, muita arte foi produzida. Em muitas dessas obras, os escravos estão retratados como parte histórica da sociedade da época, em especial na obra do francês Jean-Baptiste Debret, cujas pinturas servem como documentos da opressão dos colonos. Mas passados todos esses anos, como reagir quando uma obra com a representatividade desta estatueta é usada fora do contexto histórico, como artefato de decoração de um hotel grã-fino?


Como o amigo leitor pode acompanhar na foto acima, a peça traz um homem negro forte, quase nobre, semblante plácido e cabeça em pé. E ele abre os braços para oferecer o seu trabalho e traz nos pulsos, tornozelos e pescoço argolas douradas. Os aros das correntes?

O leitor também já deve ter percebido que nessas linhas há mais interrogações que respostas. Talvez eu devesse ter questionado a gerência sobre a peça em questão. Talvez eu devesse ter perguntado à única família negra hospedada no hotel o que eles achavam do assunto. Talvez eu esteja exagerando. Ou talvez ainda não pensemos a escravidão como o holocausto de um povo, como definiu Spike Lee. E talvez devêssemos.

As questões são muitas. E não pretendo trazer verdades aqui.

A única verdade é que esta obra segue ao lado de uma taça de vinho oferecida como boas-vindas, decorando a salinha de estar do lobby do hotel Palácio do Freixo.

Lucas Gutierrez é ator, escritor e jornalista.
* Imagem do topo: Mestiço - Portinari

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Um dia, à noite, serei feliz

Um dia serei feliz
Em noite iluminada
Pé na areia
Dois palmos dentro d'agua
Na praia
Da rua
Do bairro
Do silêncio
Com a bola debaixo do braço
Inda que não encantador
Jogarei a copa do mundo
Junto aos outros 
De mim mesmo
Cantaremos os gols de todos
Meninos de novo e de novo
De boca pro céu
Jogados no chão
Seguro e macio é o chão da inocência
E faremos gol
E pegaremos pênalti
E passaremos adiante
Comemorando como crianças
Correndo atrás dos anos que se foram
De peito aberto para as esperanças.

domingo, 20 de julho de 2014

Da terrinha

a boca do inferno

ferido e suado
segue inviolável
o rochedo deste muro
sob os ataques
de ondas que se jogam
e sobem
e descem
e batem
tal qual as forças do mundo
ou um mundo de forças
sobre meu coração imóvel
quase mergulhado em mar de sangue
resiste virtuoso
inteiro
às correntes desta vida.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Lamento de um jovem colonizado


Publicado originalmente no ORNITORRINCO. Dá uma olhada. É um site duca.

LAMENTO DE UM JOVEM COLONIZADO




Fui criado numa dieta de cultura americana. Não é a primeira vez que falo isso aqui. Já havia discutido o assunto quando escrevi sobre o Oscar. E cá estou falando dos americanos novamente. O que só reforça o laço de colonização cultural que me prende ao país em que resido hoje, ainda que em regime temporário.

Até onde me lembro, sempre gostei dos quadrinhos de super-heróis americanos. O desenho e os bonecos dos Comandos em Ação eram um hit lá em casa. Assim como as idas à locadora aos sábados pra alugar fitas, predominantemente de ação, muita tosqueira incluída. Posteriormente, me interessei por ficção científica também.

Minha dieta política enquanto crescia era a cristã-classe-média-não-proprietária, com informações recebidas basicamente da Rede Globo e da revista Veja. Quando fui virando homenzinho, comecei a adquirir consciência política, muito por influência de meu irmão mais velho. Divago para retornar ao tema.

O fato é que nos últimos tempos tenho sentido um embrulho progressivo-progressista no meu estômago colonizado. Obras que antes me fascinavam agora me provocam um sentimento estranho. Lembro-me de assistir o último 007, direção de Sam Mendes, um baita diretor, e me peguei com desprezo pelo filme lá pela metade da sessão. Como poderia torcer por um espião britânico misógino a serviço de um governo imperialista, colonialista e assassino? Exagero, mas o fato é que, talvez como eu, um monte de jovens no Brasil – e possivelmente de outros países colonizados – tenham crescido com o ponto de vista cultural que coloca americanos (e britânicos, e europeus, mas especialmente americanos) como os heróis. Quando não são traficantes de droga latinos, os vilões se revezam entre russos, chineses, árabes ou criminosos do leste europeu. Quase sempre vem do oriente.

Dia desses estava assistindo O Gângster, de Ridley Scott, que considero um bom filme americano. Em um momento, o policial interpretado por Russell Crowe lidera um grupo armado até os dentes e invade um conjunto habitacional para prender a quadrilha comandada pelo personagem Denzel Washington. Tudo dentro da legalidade, mas nas leis que ignoram ou passam por cima dos direitos dos moradores do local, em sua maioria negros e pobres. Já ouviu essa história em algum lugar? Como ignorar a semelhança com a postura da polícia nas favelas do Rio de Janeiro? E ainda: como apoiar ou torcer por um agente da guerra às drogas dos Estados Unidos, uma política que especialmente nos últimos 60 anos combate violência com mais violência, gerando o aumento de usuários de drogas legais e milhares de mortos, em sua maioria gente morena e pobre? Não se trata de defender os traficantes, mas de entender que esta guerra poderia muito bem não estar acontecendo. Comparando porcamente, continuar a torcer pelo agente antidrogas seria como torcer pelo soldado americano na Guerra do Vietnã.

Na seara dos quadrinhos, existem personagens que se assumem e se apresentam como mais complexos do que joguetes na luta do bem contra o mal. Justiceiro e Demolidor são alguns desses. Todos são, consequentemente, cercados de muita violência – outra característica marcante da cultura popular americana. Nesse contexto, Batman surge como um personagem psicologicamente perturbado, principalmente na visão de Frank Miller e (mais timidamente) no segundo filme da trilogia cinematográfica de Christopher Nolan. Sua obsessão e seus métodos no combate ao crime são questionáveis e, se olhados de perto, podem ser ditos como quase fascistas. Talvez a violência do policial mocinho e o vigilantismo na ficção percam seu poder de entretenimento depois que se toma conhecimento da existência de gente como Raquel Sheherazade e sua turma – de colegas e seguidores.

Do ponto de vista de um país colonizado, como é possível manter admiração por um personagem como o Super-Homem, que veste as cores dos EUA e luta por paz, justiça e peloamerican way of life? Como se essas três coisas fossem compatíveis. E como a colonização cultural abrange muito mais do que quadrinhos e cinema, minha questão vai além. Adoro bandas americanas (e inglesas!), mas o quanto dessas músicas eu conheceria se não fosse a colonização? E talvez o mais grave: quanta arte brasileira eu negligenciei para gastar meu tempo com arte americana ou européia?

Vivendo aqui nos Estados Unidos, o perigo da assimilação se faz muito mais visível. Americanos, em sua grande maioria, parecem conhecer unicamente a cultura deles. E só. Como se o mundo se bastasse por aqui. Para se ter uma ideia, em 1989, menos de 3% dos americanos possuíam passaporte. Em 2012 estimava-se que este índice estava em 33%, numa sociedade muito mais miscigenada do que há vinte anos. A título de comparação, segundo um canal de notícias do Canadá, 70% dos canadenses tem passaporte.

Por incrível que pareça, o ponto aqui não é o antiamericanismo. Não quero cair na armadilha de que os americanos são vilões. Vejo no mundo zonas cinzentas e não lados bom e negro da força. Mas acho que vale o esforço de olhar para as suas raízes culturais, referências, e entender o quanto disso influencia o modo como você vê o mundo. Para entender o papel deles no tabuleiro. E o seu.


Lucas Gutierrez é ator, escritor e jornalista.