Encruzilhada

Encruzilhada

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 22/2 - The Doors

22/2

The Doors

Abertas as portas
Que se façam as notas
Entre graves e agudos
Abençoados e sortudos
Melodia e semi-tom
Energia em puro som
Do vazio em uma frase
À verdade de uma base
As portas da percepção estão abertas
Convidando às descobertas
Às liberdades mais secretas
O segredo me liberta.

Filmes e Memorabilia 2013 - O Guerreiro Silencioso e O Homem do Futuro



 46. O Guerreiro Silencioso (Valhalla Rising) – 10/02 – Internet


Com domínio técnico e equilibrando estilo autoral sem afetação, Nicholas Winding Refn flerta com Terence Malick e Werner Herzog para criar um pequeno épico viking. Tendo a natureza (em especial a mata, a água, a névoa e o vento) como um personagem crucial da narrativa, o dinamarquês aborda a passagem da barbárie para a Idade Média em um filme sujo, denso, pesado e pessimista, retratando fielmente o estado de coisas da época.

Como os melhores exemplares, é uma obra que exige do espectador; há signos e possíveis significados lançados à mesa; existe uma desconstrução do épico medieval para a formação de um filme de reflexão e sensibilidade, ainda que com seus (bons) momentos de violência gráfica.

Madds Mikkelsen dá uma aula de como, graças ao bom trabalho e a presença física do ator, um personagem pode tomar o filme pra si sem falar uma palavra sequer, aproveitando-se do material que lhe foi oferecido para criar um personagem marcante. Enquanto seu diretor (e co-roteirista) é seguro, direto e convicto, além de filmar excepcionalmente bem.

MEMO: Particularmente, gosto das cenas do barco na névoa espessa, uma encenação simples, quase teatral, mas bonita e claustrofóbica, no tom do restante do filme. 

40. O Homem do Futuro – 03/01 – TV

O projeto brasileiro com a temática da viagem no tempo tem em Wagner Moura o seu dono. Vindo de um personagem do tamanho do Capitão Nascimento, aqui ele é capaz de fazer rir e convencer, em uma mesma cena, como três personagens diferentes. Observá-lo em cena é um prazer, uma aula.

MEMO: João e Helena (Alinne Moraes) cantam Tempo Perdido no palco da festa na universidade.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 21/02 - Do que me falta

21/2

Do que me falta

Vou dizer que estou assim, meio vazio
Como um homem que se enxerga por um fio

Refém desta tal expressão
Entrando no olho do furacão

Sem ceder, me sobrará memorabilia
No canto da sala, na casa da família

Fazendo o que posso, o suficiente
Ainda de pé, de corpo presente.

Comentário Babylon by Gus - Volume I - O ano do macaco

Rap; Ritmo e poesia. No caso de Black Alien, muito ritmo, muita poesia.

'Babylon by Gus - Volume I - O ano do macaco' é fascinante e, como Roberto Frejat chegou a declarar, transcendental. Viajando pelo rap e o ragga, Black Alien impõe melodia e eloquência em temas que vão do sensual ao contestador, sempre repleto de rimas sagazes e vocabulário rico, com um sem-número de referências ao seu vasto catálogo de referências culturais.

Nesse clima de mistura e riqueza de sons e melodias, Gustavo canta como se dançasse; rima como se estivesse se esgueirando e surpreende com tiradas inspiradíssimas; e é um grande prazer ouvir o que ele tem a dizer.

Discaço.



Aproveitando o tema, sugiro o documentário 'Mr Niterói - A lírica bereta', filme de Ton Gadioli produzido de forma totalmente independente, que traça a vida de Black Alien, com todas suas polêmicas e controvérsias. O filme completo está disponível no Youtube, link abaixo.


Um poema por dia - 20/02 - O refrão

20/02

O refrão

Meu verso em poesia
Dá valor à tua ação
Um verso por completo
A metade de um refrão

E haveria de dizer tudo
Um estado de amor e confiança
Na música completa, no poema
No refrão não terminado uma lembrança.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Filmes e Memorabilia 2013 - Para Maiores




45. Para Maiores (Movie 43) – 10/02 - Cinema

O nome do filme em português é ‘Para Maiores’. No original, em inglês, chama-se 'Movie 43'. E este é um alerta para recomendar que NÃO ASSISTAM A ESSE FILME, em hipótese alguma. Trata-se de uma das piores coisas que já vi na vida. Sem exageros. 

Fiquei com muita raiva de mim mesmo por ter assistido. Você merece esse filme se você saiu de casa, gastou dinheiro ou se gastou seu (precioso ou não) tempo com ele. 'Por que você não saiu no meio?', você pode me perguntar. Vai contra os meus princípios mas ainda assim, confesso que considerei a possibilidade de ir embora com tipo, 20 minutos de filme. Mas uma vez na chuva, pensei em ver até onde os realizadores do filme iriam para me molhar. Ou, para tratar grosseria com grosseria: o que é um peido pra quem já tá cagado?

Que fique claro que em condições normais eu jamais entraria no cinema para ver isso. Mas uma série de pequenos acontecimentos imprevistos no domingo de carnaval me colocou na sala para assistir a uma série de atores milionários e consagrados de Hollywood  - Hugh Jackman, Kate Winslet, Naomi Watts, Halle Berry, Terrence Howard, Richard Gere, entre outros - que, sabe-se lá porque (o fato de Peter Farelly ser produtor e diretor de um dos segmentos é suficiente?), aceitaram participar de uma série de curtas escatológicos, grosseiros, machistas e talvez o pior de absolutamente tudo: sem qualquer graça pra quem tenha mais de um neurônio.

Eu cheguei a considerar contar aqui sobre os segmentos e a ‘trama’ patética que tenta fazer uma ligação entre eles, mas não tenho forças. Quero esquecer de tudo o mais rápido possível. Fica o registro. 

E o alerta.

Um poema por dia 19/2 - Vice-versa

19/2

Vice-versa

Te amo e te odeio
Certeza, meu receio;
Te odeio, mas te quero
Em sonho te espero;
Te quero e me machuco
Me faço de maluco;
Machuco e peço mais
Para ver se encontro paz;
Mais e te mando embora
Pra te pedir de volta alguma hora;
Embora e assim vai meu ano
Te xingo, te odeio, te amo.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Especial Oscar

Comentários sobre os indicados a Melhor Filme.

Assisti a 'Argo' no ano passado, durante o Festival do Rio. Segue o comentário.


Argo é um bom filme. Ponto. Colocado lá em cima por conta de tempos pouco criativos em Hollywood, o filme traz a maturidade de Ben Affleck como realizador – ainda que como ator ele siga inexpressivo. O prólogo que contextualiza a situação no Irã de forma quase documental (inclusive com as escolhas americanas de apoio ao ditador Xá Reza Pahlevi) já traz a estética a ser adotada por Affleck, que filma como se estivesse, de fato, na virada dos anos 70 para 80 e escolhe atores menos conhecidos para os papéis dos reféns, sempre em busca de uma representação fidedigna – esteticamente, é preciso dizer.

No entanto, há de se reforçar que é o ponto de vista americano da crise dos reféns. Americaníssimo, eu diria. Pois além de trazer apenas um lado da história, colocando americanos como vítimas do radicalismo islâmico sem questionar (a não ser em uma breve fala do personagem de Bryan Cranston) o papel dos EUA naquele país ou a conduta de sua política externa, de forma geral, o filme também aumenta as dificuldades da missão em solo iraniano de forma a elevar o nível de tensão. Funciona? Funciona. Mas fica com cara de filme de Hollywood feito por americanos que seguem olhando apenas para o próprio umbigo.

Apesar dos excessos, é uma grande história por si só, e um bom filme, bem encenado e que ainda tem como atrativos as presenças de John Goodman e Alan Arkin, impagáveis.

Abaixo você pode acessar comentários sobre os outros indicados a Melhor Filme.

Indomável Sonhadora - O homem, a terra e uma força da natureza.

A hora mais escura - A tortura retratada neutra está a serviço de quem?

As aventuras de Pi - Uma fábula de visual fantástico. Mas seria o suficiente para discutir a fé?

Lincoln - Spielberg perde a oportunidade de fazer um filme político e ainda resvala no racismo.

O lado bom da vida - Atores salvam o filme da mediocridade.

Os miseráveis - Sobra som, falta silêncio.

Amor - A visita cruel do tempo.

Django Livre - A justiça da arte sobre a História.

Filmes e Memorabilia 2013 - Indomável Sonhadora


54. Indomável Sonhadora – 22/2 – cinema

‘Indomável Sonhadora’ nos oferece um retrato de uma comunidade pobre, tão à margem da sociedade que parece pertencer a outro tempo, a uma espécie de futuro apocalíptico. Ancorado em uma concepção estética fantástica e na verdade de cena evocada por seus (não)atores, o filme fascina pelo quadro que compõe, sem nunca se aprofundar nas mazelas de seus protagonistas (um suposto neorrealismo pós-crise não passa perto daqui). Por um lado, isso poderia despertar críticas por conta de uma super-estetização da pobreza, mas essa possibilidade é esvaziada uma vez que estamos vendo o mundo pelos olhos de uma criança.

E que criança. Quvenzhané Wallis, cinco anos de idade (!!!) quando foi escolhida como protagonista, domina o filme de tal forma que fica difícil imaginar como seria outra criança ali, ou até se o filme poderia existir sem ela. Através dos olhos de Hushpuppy, enxergamos aquele grupo de pessoas vivendo como partes intrínsecas da natureza (como em algum dia foram todos os homens). Logo atrás da fabulosa Quvenzhané Wallis vem Dwight Henry, um padeiro da vida real que aqui interpreta seu pai, Wink, alcoólatra mas preocupado em ensinar para a jovem filha como sobreviver.

Confesso que esperava um pouco mais de ‘Indomável Sonhadora’. Apesar do bonito estudo sobre as raízes do ser humano à sua terra, encenado ao som de muito folk épico e com belas imagens, o filme é mais um retrato do que uma narrativa em si. Tive a impressão de que poderia ser um curta ou um média metragem (é baseado numa peça de teatro, inclusive). Mas aí também, talvez não tivéssemos a oportunidade de conhecer ou de ver por tanto tempo em cena essa força da natureza chamada Quvenzhané Wallis (cujo próprio nome parece anunciar).

MEMO: A cena da festa no prólogo, culminando com Hushpuppy correndo com fogos sinalizadores (imagem que ilustra o cartaz do filme).

Um poema por dia - 18/02 - O amor em fantasia

18/2

O amor em fantasia

Que venha efêmero, passageiro
esse amor em fantasia;
Incerto, eterno, estrangeiro
Sorriso de mente vazia;

Que acorde luzes, cores no escuro
Amargo sonho, sabor inseguro
Do que não foi, não é, nem pode ser

Que seja feito e satisfeito
Vivo, forte e mais perfeito
E tudo ainda em seu poder

Que uma noite, noite sem defeito
Se faça em leito, de próprio jeito
Meu imaginário de prazer.

Filmes e Memorabilia 2013 - A hora mais escura


52. A hora mais escura – 15/02 - cinema


‘A hora mais escura’ assume que agentes americanos conseguiram através do uso da tortura informações vitais para a localização de Osama Bin Laden. O simples fato de mostrar essas cenas poderia fazer parecer que o filme está condenando a prática. Não é o caso. Neste filme, os torturadores são os mocinhos. Mocinhos sim, pois por mais que realizadores tentem afirmar que a lógica do filme é imparcial e busca mostrar todos os lados da caçada a Osama, pra mim, é balela.

    O brasileiro ‘Tropa de Elite’ foi acusado de defender métodos truculentos da polícia do Rio de Janeiro. No entanto, naquele caso, o filme se faz do ponto de vista do protagonista (Capitão Nascimento), um sujeito que testemunhamos no decorrer da projeção como totalmente desequilibrado e sob uma tamanha carga de stress por conta do trabalho a ser realizado que o deixa a ponto de explodir. No caso de ‘A hora mais escura’, o ponto de vista da narrativa é mais amplo, temos uma protagonista, mas não assistimos o filme do ponto de vista dela. Sendo assim, aqui e ali, Maya (Jessica Chastain) aparece como uma mulher que vai se tornando obcecada pelo trabalho de localizar Bin Laden, mas esse desenvolvimento não é o suficiente para emitir um julgamento moral sobre as atitudes do governo para alcançar o objetivo.

      O filósofo esloveno Slavoj Zizek, ao decorrer sobre o filme, colocou a seguinte questão: ‘A serviço de quem está uma representação da tortura que se apresenta como neutra’? A diretora Kathryn Bigelow afirmara, em carta ao Los Angeles Times, que ‘representação não é aprovação, elogio’. Zizek, por sua vez, coloca que ‘ninguém precisa ser um moralista, ou ingênuo sobre as urgências da luta contra ataques terroristas, para pensar que torturar um ser humano é, em si mesmo, algo tão destruidor que representa-lo de maneira neutra – isto é, neutralizar este caráter destruidor – é por si uma maneira de apoiá-lo’.

Aqui temos um filme que se propõe ser mais ‘honesto’ acerca das táticas e escolhas dos seus governos, refutando um tom ufanista de louvação ao militarismo, mas ainda assim é construída uma narrativa tensa que deixa o espectador torcendo pelos Seals na sequência da captura e assassinato de Bin Laden. Ao fim da sessão, não considero esta uma sensação boa. O suposto ponto de vista ‘múltiplo’ ou ‘neutro’ defendido pelos realizadores é, na verdade, o ponto de vista americano, que em momento algum questiona o porque desta guerra, os motivos que levam  aos ataques terroristas e também os limites das operações americanas quando o assunto é direitos humanos.

    Para um retrato americano mais honesto sobre a posição do país em sua cruzada contra o terrorismo, sugiro uma sessão dupla com o documentário ‘Procedimento Operacional Padrão’, de Errol Morris, sobre os abusos em Abu Ghraib e a ficção ‘Guerra sem cortes’, de Brian De Palma (completo no link abaixo), sobre assassinatos cometidos por soldados americanos no Iraque.


MEMO: À parte da política, o filme é uma boa fita de ação. E a sequência da captura de Bin Laden é memorável em sua claustrofobia e escuridão.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 17/02 - Seu nome

17/2

Seu nome

Você tem meu nome
Agora parta e me abandone
Vá pra longe, se apaixone
Enquanto fico aqui, insone
Na linha traçada de tédio
Por assédio, sem remédio
Por erro e acerto
Restrito ao desconcerto
De ver-te ir
Partindo por partir
Sem se despedir
Leva meu nome e some
Me faz nunca mais dormir
Meu nome roubado num sorrir.

Filmes e Memorabilia 2013 - Jorge Mautner - Filho do Holocausto

51. Jorge Mautner – Filho do Holocausto – 14/02


Tentativa bem-sucedida em injetar novidade no popular gênero do documentário musical brasileiro, ‘Jorge Mautner...’ se junta a um clube de filmes que souberam como fazer uma biografia de um ícone da música e ao mesmo tempo fugir dos clichês do gênero. Neste clube, incluo ‘Não estou lá’, de Todd Haynes, sobre Bob Dylan, e ‘Control’, de Anton Corbijn, sobre Ian Curtis.

Apesar de se tratar de um documentário (enquanto esses outros dois filmes são ficções), o doc de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt se sobressai por adotar como linguagem um traço definidor do biografado, de modo a refletir como cinema a personalidade de quem está sendo retratado. Assim, temos um pouco de teatro, um pouco de cinema, um pouco de literatura, um pouco de jornalismo, um pouco de poesia e muita música.

Uma verdadeira figura (e pelos registros, sempre foi assim), aos 72 anos, Mautner destila seu talento, sua arte e, em especial, sua alegria contagiante enquanto recebe amigos, ouve depoimentos e contribui com a narrativa de sua própria história através de números musicais e leituras de seu livro, ‘O filho do holocausto’.

Como dizia o trailer deste doc, este é um cara que você tem que conhecer.

MEMO: Além da performance de Mautner e banda em ‘Maracatu Atômico’, no início do filme, e dos momentos do artista em conversa com sua filha, Amora (nomeada com o feminino da palavra ‘amor’!), destaco a emocionante participação de Gilberto Gil que, cantando com voz e violão (e acompanhado pelo violão do filho Bem), leva Jorge às lágrimas.

Um poema por dia - 16/02 - O mergulho

16/2

O mergulho

Posso ouvir o barulho
Posso ouvir o mergulho

Entre a multidão de sons da minha tarde
Posso ouvir o mergulho
Me hipnotiza
Me tranquiliza

Posso ouvir o mergulho
Em contínua melodia
Uma breve sinfonia

Ouço e não deixo de ouvir
Ouço e estou maravilhado
Ouço o mergulho a prosseguir
Ouço e estou quase apaixonado

O som se cala, fala o sentimento
Por uma tarde, por um momento
Quase posso ver, posto a imaginar
É meu o mergulho, sou eu a mergulhar.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 15/02 - Até o novo

15/2

Até o novo

Tentar de novo
De novo errar
Amar de novo
De novo chorar
De novo lutar
De novo sonhar
De novo, de novo, de novo
Caminhar de novo
De novo me perder
De novo me encontrar
De novo, o novo
De novo e de novo.

Filmes e Memorabilia 2013 - As aventuras de Pi



50. As aventuras de Pi – 13/02

Baseado no livro ‘Life of Pi’, que por sua vez foi acusado de plágio por usar uma premissa parecidíssima com uma história escrita pelo brasileiro Moacyr Scliar, ‘As Aventuras de Pi’ tem uma qualidade técnica indiscutível. Há cenas que parecem verdadeiras pinturas e toda temática da natureza e da espiritualidade favorecem essa qualidade. Ponto para a sensibilidade de Ang Lee, que comandou a adaptação que chegou a ser considerada inadaptável por alguns.

Aí chegamos a um ponto realmente pessoal. O filme todo é lindo, possui um mote bonito, o jovem Suraj Sharma é cativante, assim como o tigre Richard Parker e o Pi adulto interpretado por Irrfan Khan. Mas pra mim, falta alguma coisa.

Talvez o visual fantástico e o tom fabular não sejam o bastante para levantar o questionamento religioso. Acho que possui imagens muito interessantes (a ideia final também é muito bem sacada), mas aproveitando o tema do filme, minha fé em Pi não alcança um nível de crença suficiente para embarcar em suas aventuras de cabeça.

Não li ‘Life of Pi’, de Yann Martel. Mas prefiro ‘Relato de um náufrago’, de Garcia Márquez...

MEMO: O ‘voo’ da baleia é lindo, mas minha cena favorita é a sequência do naufrágio, culminando com Pi debaixo d’água, contemplando as luzes do navio, agora submerso.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 14/02 - Mil

14/02

Mil

Serei mil
Mil vozes, mil corpos, mil almas
Vendo por outros olhares
Por outros lugares
Sentir, sentir e viver
Mil vezes
Como homem, mulher, velho ou criança
Palavra, pensamento, sentimento
Mil vidas
Mil vezes
Serei mil.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Filmes e Memorabilia 2013 - Lincoln


49. Lincoln – 13/02


Com uma trama histórica interessante e importante para a compreensão dos EUA e, consequentemente, de questões relacionadas a todo o continente americano, Steven Spielberg poderia ter feito um filme político, mas não resistiu à tentação de endeusar e mitificar a figura de Abraham Lincoln. Assim, em vez de um ser humano falho e complexo num cargo delicado, temos diante de nós um ‘mito’, um grande homem, de gênio inigualável, que enfrentou tudo e todos, que lutou por uma causa por... porque era um grande homem.


Apoiado na caracterização impressionante de Daniel Day-Lewis (um ‘monstro’; como de costume, dá uma aula e faz valer o ingresso) e num elenco que talvez só alguém de sua importância consiga reunir - Tommy Lee Jones, fabuloso, além de David Strathairn, James Spader, Hal Holbrook, Joseph Gordon-Levitt, Jackie Earle Haley, Tim Blake Nelson, entre outros - Spielberg perde a oportunidade de se aprofundar na questão política da abolição da escravidão para seguir a ‘cartilha’ (que ele ajudou a criar, diga-se de passagem), subindo a música para emocionar, sem pudor de manipular o espectador. Na cena da votação da emenda, ele quase me pegou. Até que pensei: 'Se todos estão contando os votos, da Câmara aos soldados, pra que o mistério e a demora em revelar o resultado?'. O resultado é a 
estranha sensação de 'já vi esses truques antes'. Sorria, você está sendo manipulado. 

Não satisfeito, Spielberg ainda cria arcos artificiais e melodramáticos (todo a história da família de Lincoln, em especial as intervenções de Sally Field, caricatural e dois tons acima do necessário).

O maior exemplo da opção do diretor em tornar superficial a questão política do filme para superestimar seu personagem-título  é que Spielberg não abre mão de mostrar – mesmo que de forma apressada e artificial – a morte de Lincoln, que aconteceu alguns anos depois dos acontecimentos centrais do filme. O que quero dizer é: se o filme não é uma biografia de Lincoln, concentrando-se apenas nas manobras políticas para abolir a escravidão e acabar com a Guerra de Secessão, por que mostrar o assassinato do presidente? A resposta, não posso deixar de imaginar: para conseguir algumas lágrimas adicionais dos espectadores.

É uma pena ainda que ‘Lincoln’ se inclua no hall dos filmes que tratam de direitos dos negros com uma visão predominantemente branca (incluo aí também o deplorável ‘Histórias Cruzadas’), estabelecendo escravos como ‘coitados’ à espera do homem branco que vai salvá-los da escravidão. Simplesmente lamentável.

E viva Django, explodindo a Casa Grande e fazendo justiça histórica na ficção!

MEMO: A cena que se passa, se não me engano, na noite anterior à votação da emenda, em que Lincoln é veemente e fala duro pela primeira vez com os membros mais próximos de seu gabinete.

Um poema por dia - 13/02 - Blue

13/02

Blue

Did I let you down
Being the only one around
You

Looking in your eyes
Forgot to say goobye
True

Sorry couldn't stay
Wasn't mine to say
Fool

Now I stand alone
Living on my own
Blue

Blue, blue, blue, blue
Without you

Blue, blue, blue, blue
It's sad but it's true

Blue, blue, blue, blue
Yes, I became the fool

Blue, blue, blue, blue.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 12/02 - Outro

12/02

Outro

Pudera ser
Outro
Sem caminho de casa
Solto
Sem corrente ou amarra
Louco
Sem partida ou chegada
Torto
Caminhante na estrada
Pouco
Vendo mundo outra cara
Porto
Onde ninguém passa e ninguém para
Morto.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 11/02 - Um poema por dia

11/02

Um poema por DIA

Não tenho o que me grita
Não tenho o que me excita
Não tenho que me agita
Mas tenho a poesia.

Não tenho o que me inspire
Sequer o que me ilumine
Tão pouco o que me define
Mas tenho a poesia.

Posso não ter o que me move
Não tenho o que me aprove
Muito menos o que me sobre
Mas tenho a poesia!

Filmes e Memorabilia 2013 - Qual é o nome do bebê?


43. Qual é o nome do bebê? – 07/02 – Cinema

Um filme delicioso. Adaptação da peça ‘Le Prénom’, de Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte  - aqui também diretores - o filme conquista desde o início com os letreiros que trazem apenas o primeiro nome de todos os membros da equipe e o estilo dinâmico de iniciar os trabalhos da narrativa (à la Ilha das Flores). E dinâmica aqui é a palavra-chave. 

Apoiado num texto fluente e num elenco afiado (encabeçado por Patrick Bruel, carisma puro e, segundo boatos, possível protagonista do Woody Allen de 2014), ‘Qual é o nome...’ não se mantém apenas no conflito do título e, na verdade, parte dele para, depois de ter apresentado e estabelecido cenário e personagens, iniciar a lavagem de roupa suja entre os cinco amigos (cada um com suas neuroses) sem nunca perder o bom humor.

Não há grandes observações sociais ou questionamentos morais como nos textos de Yasmina Reza (‘Deus da Carnificina’, adaptado ao cinema por Roman Polanski; ‘Arte’), mas tão pouco é esta a intenção aqui. 

Despretensiosa e leve, essa comédia ainda ganha muitos pontos por trazer trama e personagens adultos - ainda que por vezes em estado de ego infantil - sem nunca apelar para o pastelão ou a escatologia.

MEMO: O momento em que Vincent (Bruel) conta aos amigos o nome que dará ao filho.

Um poema por dia - 10-02 - Filho do silêncio

10-02

Filho do silêncio

Essa fome que não passa
Essa sede que sufoca
O incerto se disfarça
A incerteza me provoca

Essa ânsia me convoca
Enquanto o medo me transpassa
Teimo o coração, se revolta
Volta a razão e me arrebata

E ainda há a falta, me mal trata
Filho do silêncio, solidão
Vem dúvida, olha e me retrata
Príncipe, poeta, cancioneiro sem refrão.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 09/02 - O pensamento

09/02

O pensamento

Invento. De próprio tento
Alento e me contento
Com a noção do tempo
De que em algum momento
Me encontrarei sedento
Sempre em movimento
Ainda que lento
Aguento. E aumento
Fomento o mesmo que alimento
Num círculo sem fim de crescimento.

Comentário Mostra 'William Kentridge – fortuna'




Recomendo a exposição ‘William Kentridge – Fortuna’, em cartaz até amanhã, domingo 17/02, no Instituto Moreira Salles. Além do fato de que sempre vale a pena ir ao Instituto, a mostra de Kentridge apresenta um artista expressionista dedicado a retratar e refletir em seus desenhos (animados ou não) sobre o indivíduo, a sua África do Sul natal, a guerra e sua própria arte.

A retrospectiva é a primeira grande exposição sobre o artista na América do Sul e conta com 38 desenhos, 27 filmes, 184 gravuras e 10 esculturas produzidos desde 1989.

Além de abordar temas mais espinhosos em desenhos animados experimentais, Kentridge brinca com significados ao pintar formas em páginas de dicionários e não perde o bom humor ao se entregar à magia do vídeo para fascinar usando a si próprio (uma figura por vezes quase bonachona) como parte de algumas de suas obras em que desconstrói a noção de tempo, continuidade e de seu próprio processo artístico.

Instituto Moreira Salles – Rua Marquês de São Vicente 476, Gávea, Rio de Janeiro – RJ – Telefone: (21) 3284-7400 – De 11h às 20h, até amanhã, 17/2 – Entrada gratuita.

Filmes e Memorabilia 2013 - O lado bom da vida


43. O lado bom da vida – 08/02 – Cinema


O grande elenco, afiado e dedicado (entre principais e coadjuvantes), salva o filme da mediocridade. 

Buscando enfocar o distúrbio bipolar com um viés tragicômico – tenho uma tia psicóloga que questionou veementemente o enfoque dado aos protagonistas – o filme constrói tipos ‘bonitinhos’ e ‘maluquinhos’ que apesar da graça de seus diálogos, hora nenhuma parecem pertencer ao ‘mundo real’ escolhido pela narrativa como lugar onde a história acontece.

Bradley Cooper é esforçado e injeta energia em suas cenas, assim como a carismática Jennifer Lawrence (de apenas 22 anos); Robert De Niro e Jacki Weaver constroem bons personagens como pais, mesmo com pouco tempo de cena; Chris Tucker e John Ortiz roubam suas cenas. 

E com um elenco destes na ponta dos cascos, 'O lado bom da vida' se entrega a clichês bobos de comédia romântica adolescente e açucarada, equilibra a balança e se contenta em ser um filme mediano.

MEMO: Se não fizesse parte do rocambole de clichês em que o filme mergulha no terço final, a dança dos protagonistas poderia ser memorável. Mas devido às circunstâncias, prefiro escolher o primeiro encontro de Pat e Tiffany, que termina num acesso de raiva – dela.

Um poema por dia - 08/02 - Pó e mágica

08/02

e mágica

O que somos todos
Senão sombras, pó e mágica
Espalhados por cada pedaço de mundo
Nascidos, vividos de lógica trágica

O senso de sentir
A força que nos move
O medo de cair
A fé que nos revolve

Mais que sobre, mesmo viver
Em sintonia, harmonia
Alegria. De crescer, querer, poder
Ser. A diferença insignificante, energia
Pó. Pó e magia.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 07/02 - Quem se atreve a me dizer

07/02

"Quem se atreve a me dizer"

E a poesia, o que será?
Mistério jogado no ar
Alguém como tu me dirá
Mera brincadeira de rimar

E irei, sem rima então,
Ou qualquer semelhante
Parto a me lavar a alma
Auto-condenado a criar
Se nunca houve, faço como quero
Com própria lei
Atrás de melodia
Destino das palavras

Escrevendo sons, governando tons
E já me volto a combinar
Pois cá estou pra terminar
E uma vez mais perguntar
E a poesia, o que será?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 06/02 - A figura

06/02

A figura

Por presente põe personagem
Como contente conta coragem
Pr'onde passará a palavra perdida
Quem cantará a canção conhecida?

Convencido, calado, corando cor de cerejeira
Banido, abalado, beirando o abismo
Bandido baleado burlando brincadeira
Contido, quebrado, caminhando comigo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 05/02 - Uma breve história de vida

05/02

Uma breve história de vida


Uma breve história de vida
Que se faz partida
Pela mais querida
Em fria despedida

Uma história lida
Ou por então ouvida
Sobre a mão incontida
E a alma ferida
Há muito prometida
E por si só dividida
Em meio à colorida
Breve história de vida.

Comentário 'Calabar - O elogio da traição', de Chico Buarque e Ruy Guerra


CALABAR – O elogio da traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra (1973)


Tomando liberdades propositalmente em cima de um episódio histórico, Chico Buarque e Ruy Guerra transformam em herói uma figura que sempre foi tida como traidor e misturam drama e comédia no texto deste saboroso espetáculo musical.

Com a figura de Calabar pairando sobre a ação – sendo o centro dos acontecimentos e dando nome à peça, mas sem nunca mostrar o rosto, de fato – o enredo enfoca governantes holandeses e portugueses, Igreja, colonos e mercenários no nordeste do Brasil colonial de 1635, tecendo uma teia de traição (por vezes cômica) e fazendo referências a momentos mais recentes da história do país.

O texto traz canções célebres como ‘Tatuagem’ e apresenta personagens ricos como Barbara, Anna de Amsterdam, o Frei, Sebastião do Souto e o impagável e megalomaníaco Mauricio de Nassau. Todos organizados nos versos e prosa de Chico e Ruy para produzir uma pertinente crítica política e social à colonização (em especial ao modelo monocultor dos portugueses adotado no Brasil) e, consequentemente, à Ditadura Militar com suas ‘versões oficiais’ dos fatos, prática da censura e alinhamento com os EUA, colonizadores modernos.

“ Um dia este país há de ser independente. Dos holandeses, dos espanhóis, dos portugueses... Um dia todos os países poderão ser independentes, seja do que for. Mas isso requer muito traidor. Muito Calabar. E não basta enforcar, retalhar, picar... Calabar não morre. Calabar é cobra-de-vidro. E o povo jura que cobra-de-vidro é uma espécie de lagarto que quando se corta em dois, três, mil pedaços, facilmente se refaz.” (BUARQUE & GUERRA, 1973:133)

Um poema por dia - 04/02 - O que queremos

04/02

O que queremos

Alguns amores, poucas dores
Que me poupem dos horrores
De me esgotar em sonhadores
Dispersos em vivas cores
Sobre sonatas e sabores
Entre exatas e valores
Candidatas e detratores
Na ânsia de sobrevivermos,
Senhores.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 03/02 - Dou-lhe arte

03/02

Dou-lhe arte

Traz-me ódio
Eu te darei arte
Traz-me dúvida
Eu te darei arte
Meu sonho, minha esperança
Nunca sozinho com meu estandarte

Dá-me tua voz
Enquanto o vento avança
Dou-te a palavra
E até onde ela alcança

Um beijo, um olhar
Uma pena, uma lança
Inventa a memória
Pinta a lembrança

Qual fé, sistema, convicção
Vende sorrir, planta mudar
De boca em boca, libertação
A vida a seguir, a vida a pulsar.

Filmes e Memorabilia 2013 - Cabra marcado para morrer


42. Cabra Marcado para Morrer – 05/01 – Internet

Originalmente um filme de ficção com não-atores que retrataria a vida do militante camponês João Pedro Teixeira, assassinado enquanto liderava a Liga Camponesa de Sapé na briga pela Reforça Agrária, ‘Cabra Marcado pra Morrer’ foi interrompido pelo Golpe Militar de 64. Com a anistia no governo Figueiredo, o mestre Eduardo Coutinho volta ao nordeste para reencontrar os personagens/atores da história não filmada e completar o filme como for possível.

Com um esforço de produção fabuloso, Coutinho produz uma obra semidocumental contando a história do projeto original, de João Pedro, sua família e outros líderes da região através de imagens de arquivo, depoimentos e as próprias imagens que se salvaram do filme de 64. O resultado é uma verdadeira jóia do cinema documental brasileiro, uma mistura de jornalismo, cinema novo, metalinguagem e documentário no retrato da militância política no campo, no interior do nordeste brasileiro, onde nos anos 50 começava a luta pela Reforma Agrária.

MEMO: Coutinho encontra Elizabete Teixeira, viúva de João Pedro, que por 17 anos esteve escondida em uma cidadezinha do Rio Grande do Norte, foragida do Regime Militar.

*O filme completo está disponível no youtube (link abaixo).


Um poema por dia - 02/02 - Religando

02/02

Religando

Qual será a bússola moral
Capaz de dividir o que será em dois
Quem vai me salvar à beira do final?
Quem vai me convencer do que virá depois?

Viver, chorar, sentir, amar
É mais que o bastante, é só o que há
Eu e você, juntos assim
Importa o durante, muito mais que o fim.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 01/02 - A sociedade de Eddie

01/02

A sociedade de Eddie

para Chris

Mais
Quer mais
Pensa que precisa, mais
Pensa que isso é vida, mais
Consumindo, consumida, mais

Mais, o bastante não será
Mais, mais espaço, mais lugar
Mais, mais pra me aliviar
Mais, mais, quem sabe, libertar

E mais querer
E mais poder
E mais ser
E mais ter

E querer mais do que ter
E parecer mais do que ser
E esconder mais do que ver
E mais e mais, mais até morrer.

(Para ver a verdadeira sociedade de eddie, clique aqui.)

Um poema por dia - 31/01 - Inspiria

31/01

Inspiria

Inspiração é um barco que corre livre
Corajosa luz na escuridão
Gato encarando tigre
Rio que recusa mansidão

E corre, corre, corre
crendo no futuro desaguar
Ideia que nasce, vive, morre
Sem se saber onde vai parar

Pedra fundamental, partida da construção
Ponte da criação, revolução do olhar
Centelha, mistério da inspiração
Vindo de lugar nenhum, indo pra algum lugar.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 30/01 - Para Pedro

30/01

Para Pedro

De dentro da floresta
O que me resta
Não presta
E ainda assim me testa
Esperando pra ver por qual fresta

SobreviveREI

De forma honesta
Sem ter que ficar pra festa
Longe de quem me detesta
Ou simplesmente me contesta
Por querer outra experiência que não esta.

Um poema por dia - 29/01 - Eva

29/01

Eva

Eva,
Me carrega de volta pra treva
Me esconde, me esquece, me enterra
Acaba comigo, me encerra

Eva,
Me chama e me tira da cama
Me faz levantar para a vida
Me cura essa carne ferida
Me acende a chama perdida

Eva,
Em sonho te peço, te imploro
Te escrevo, te falo, te adoro
Pega minha palavra e constrói
Que a falta de fé me destrói.

Filmes e Memorabilia 2013 - Olhos Azuis


41. Olhos Azuis – 04/01 – TV - Repetido

Produzido em 1996, o documentário que acompanha a dinâmica criada pela professora Jane Elliot é simplesmente arrebatador ao retratar como o racismo e a discriminação se inserem nos núcleos de poder da sociedade. Através de um intrincado e fascinante exercício, Jane separa participantes baseando-se na cor de seus olhos e simula por duas horas e meia o estado de opressão psicológica que pressiona as minorias (em especial a comunidade negra) na sociedade americana.

*O filme está completo está disponível no youtube, legendado (Link abaixo)



MEMO: Entre muitos momentos da retórica de Jane destaco:
- Jane pergunta a um auditório lotado de brancos sobre quem ali se disporia a ser tratado como um negro é tratado na sociedade americana. Ninguém levanta a mão.

- O momento em que homens e mulheres negras relatam o estresse por que passam diariamente.

- Jane dizendo que uma vez uma sobrevivente da Segunda Guerra lhe disse que o clima de segregação evocado pelo exercício é similar ao instaurado contra os judeus na Alemanha nazista.

- Os trechos do documentário ‘Eye of the Storm’, com o exercício sendo feito com crianças da escola onde Jane lecionava.

- “Tudo que o opressor/racista precisa para conseguir seu objetivo é que as pessoas de bem não façam nada. (...) Não fazer nada é colaborar com o opressor”.

- (Para uma jovem de olhos azuis) “Seja mais que bonita. Você vai ser bonita até os 45 anos. Depois, quando quiser uma promoção vão lhe dizer ‘você é bonita, mas não é qualificada’ e haverá outras tantas mais bonitas que você. Mulheres, qualifiquem-se! E vocês que gostam de ser chamadas de Deby, Paty, Susy, parem com isso!”

Um poema por dia - 28/01 - Rastapé

28/01

Rastapé

Morena, esse teu vestido rendado
Não me deixa ficar parado
Rodando doidinho que só

Rodando o vestido, morena, eu te levo
Te agarro, te jogo, te pego
Puxo pra dançar o forró

Morena, vem dançar de rosto colado
Arrastando a sandália no chão
Caindo um pouquinho de lado
Juntinhos, dançando o baião

Vem que a dança boa é de dois
Teu corpo com o meu apertado
Deixa o amanhã pra depois
Balança o vestido rendado

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Um poema por dia - 27/01 - Versos de mp3

27/01

Versos de mp3

Chove lá fora e aqui
Invento o cais
Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Por isso não me deixe nunca, nunca mais

Meu sangue latino
Eu que já não sou assim, muito de ganhar
Tenho muito pra contar
Mas se você vem perto eu vou lá, eu vou lá

Se você disser que eu desafino, amor
Alguma coisa acontece no meu coração
Jogo num verso, intitulado mal secreto
Danço eu, dança você, a dança da solidão

Se ela disser que não lhe quer mais
Se oriente, rapaz
Isso não pode ser assim
Tristeza não tem fim.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Filmes e Memorabilia 2013 - Os Miseráveis

39. Os Miseráveis – 03/01 - Cinema



Entre começar a trabalhar em ‘Os Miseráveis’ e lançar a obra com estrondoso sucesso, Victor Hugo dedicou quase vinte anos de sua vida. O histórico romance foi lançado em cinco volumes, com algumas edições contabilizando no total 1300 páginas. O filme de Tom Hooper, que adapta o musical nascido nos anos 80 na França e importado/traduzido para a Broadway, tem pouco mais de 2h30. O resultado da equação é uma narrativa apressada, atropelada e que, ao contar toda a SAGA de forma cantada - no modelão Broadway, diga-se de passagem - transforma todo momento em som e fúria. Mas quando absolutamente tudo é espetacular, épico, não há nuance, não há respiro; tudo vira uma coisa só. É como um filme de ação com sequências de perseguições e tiroteios sem intervalo; ou um filme de terror com sustos ininterruptos; uma comédia com piadas sem cessar. São exemplos banais, mas foi essa a impressão que tive ao assistir ‘Os Miseráveis’. Talvez a estrutura toda cantada nem seja exatamente o problema; a questão é que todos os números são épicos e aí, mais uma vez, tudo vira uma coisa só e eu, como espectador, não tenho tempo de me importar com nada nem ninguém, porque mal terminou uma catarse e lá vem outra na sequência.

Sou fã de musicais. E romântico declarado. Meu filme preferido é West Side Story, um musical de 3 horas de duração, adaptando Shakespeare, ídolo dos românticos. A obra de Victor Hugo é romântica e melodramática por si só, mas a opção de acelerar a narrativa e colar todos os números musicais (usada para supostamente dar ritmo e evocar uma linguagem teatral) simplesmente eleva o melodrama a níveis insustentáveis, para não dizer insuportáveis. Por consequência, personagens surgem superficiais e unidimensionais. Veja a Fantine de Anne Hathaway, por exemplo. Surge em cena e sofre, sofre, sofre, sofre. Desde seu primeiro instante ela é oprimida por suas colegas (sabe-se lá o porque), seu contramestre, e depois, por todas as pessoas da ‘zona’ da cidade: prostitutas, cafetões e clientes, todos caricaturais. A única que sofre ali é a pobre Fantine. A questão da narrativa pra mim é que, sem concessões, talvez ‘Os Miseráveis’ seja uma obra inadaptável para o cinema comercial. É uma saga, como já disse. E as concessões que esta adaptação faz (e acredito que sejam as mesmas do musical da Broadway, que nunca vi), na minha opinião, são as piores possíveis. Porque ao acelerar encontros, momentos, transformações e o ritmo da história como um todo, deixa a ação confusa e suprime as motivações e as nuances dos personagens - por vezes nos perguntamos ‘por que ele está fazendo isso mesmo?’. 

Atropelar os acontecimentos e transformar tudo em uma coisa só é realmente uma pena porque prejudica não só o andamento da história como as performances do bom elenco. Sem tempo de desenvolver os personagens entre as cantorias, Anne Hathaway resume-se a sofrer e chorar; Russell Crowe resume-se a perseguir implacavelmente, numa mesma escolha de expressão; Hugh Jackman, a partir do momento que se eleva socialmente, se resume à culpa e à fuga. Acho uma pena especialmente por conta de Jackman, competente, totalmente dedicado e entregue ao papel, mas que recebe um peso ainda maior sobre os ombros ao ter que levantar o filme a cada cena, uma vez que seu personagem é o mais próximo que existe de um fio condutor da saga.


E nem vou começar a falar de política, com a visão cristã, religiosa e por vezes elitista predominando sobre o destino dos personagens.

Pra terminar, uma reflexão. Música não é simplesmente som, é a junção de som com silêncio. Se não há silêncio, se só há som, não há música. Em ‘Os Miseráveis’, fiquei com a impressão de que sobra som (extraordinariamente captado ao vivo, diga-se de passagem). Mas falta silêncio.

MEMO: Mesmo com todas minhas críticas negativas ao filme, não questiono que é arrepiante assistir Fantine cantando ‘I dreamed a dream’.